31 julho 2018

Prateleira de Julho


Julho, mês de Júlio César, calor e revolução.
Nos Estados Unidos, o dia 4 da indepência, em França, o dia 14 da Bastilha, em Portugal o volte-face a 24, o da avenida, nesse outro embate entre constituição e tradição.
Tempo do estio e dos corpos lânguidos de areia e ondulação. Calor e revolução, audácia, amor e reparação. Apeadeiro da tradição que me trouxe, à espera da constituição que quero ser.
Prateleira de cheiro a mar, posta, composta, proposta. Não será tão simples como eu pensava. Não falo de países, mas de esperanças. Quem disse que tudo está perdido?
Eu venho oferecer o meu coração.

Uma colaboração para ninguém #1
támuitabom | matilde_tp
#prateleiracalendário #prateleiradecordel 

20 julho 2018

Barro Talvez

Te doy una canción.



"Cómo gasto papeles recordándote,

Cómo me haces hablar en el silencio.
Cómo no te me quitas de las ganas
Aunque nadie me ve nunca contigo.
Y cómo pasa el tiempo, que de pronto son años
Sin pasar tú por mí, detenida.

Te doy una canción si abro una puerta
Y de las sombras sales tú

Te doy una canción de madrugada,
Cuando más quiero tu luz
Te doy una canción cuando apareces
El misterio del amor
Y si no lo apareces, no me importa:
Yo te doy una canción

Si miro un poco afuera, me detengo:
La ciudad se derrumba y yo cantando.
La gente que me odia y que me quiere
No me va a perdonar que me distraiga.
Creen que lo digo todo, que me juego la vida,
Porque no te conocen ni te sienten.

Te doy una canción y hago un discurso
Sobre mi derecho a hablar.
Te doy una canción con mis dos manos,
Con las mismas de matar.
Te doy una canción y digo Patria,
Y sigo hablando para ti.
Te doy una canción como un disparo,
Como un libro, una palabra, una guerrilla:
Como doy el amor."

Sílvio Rodriguez

27 junho 2018

Ressuscitando

Pe. Miguel Gonçalves Ferreira, sj


"Talvez seja este gerúndio a forma verbal que melhor descreve o que está a acontecer na aldeia de Ferraria de S. João, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Faz agora um ano que por lá passou o grande incêndio de Pedrogão. Logo na semana seguinte, um grupo de moradores da aldeia meteu mãos à obra para fazer acontecer o futuro, de um modo surpreendente. Eles próprios tinham sido surpreendidos pela maneira como um pequeno bosque de sobreiros se tornou o único aliado dos dois carros de bombeiros que tinham vindo fazer frente às chamas. Entendida a lição dada por estas árvores centenárias, os habitantes iniciaram o projecto de envolver toda a aldeia com um cordão de árvores resistentes ao fogo. Falamos de 12 hectares onde existem 255 parcelas de terreno com 77 proprietários diferentes, dos quais só foi possível localizar 40. Este é apenas mais um retrato desse “outro Portugal” de que tem falado o Presidente da República.

O que mais impressiona neste projecto, que pode ser acompanhado no facebook é a força anímica de três famílias que há alguns anos se mudaram para esta “Aldeia do Xisto”. Esta é, então, a história de como o Pedro e a Sofia, o António e a Maria, o Ricardo e a Catarina conseguiram motivar o Manuel, a Arrelete, a Sandra, a Isabel, o José, a Benilde, a Fátima, a Isilda e os restantes habitantes deste povoado de 40 almas. Esta é a história de um contágio positivo de confiança que envolveu dezenas de pequenos proprietários em mais de 20 pacientes reuniões. Bom seria que não fosse caso único no país! Só assim é possível que, um ano depois da tragédia, haja mais de 400 árvores plantadas, tendo sido removidos os eucaliptos e os pinheiros que bordejavam a aldeia. Estas pessoas sabem que eucaliptos e pinheiros são essenciais para a sustentabilidade da floresta, mas cada árvore no seu lugar. O sonho de um novo futuro foi crescendo com o apoio do Município de Penela, de Associações várias e de uma legião de mais de 500 voluntários vindos de muitas partes que, ao longo deste ano, foram participando num processo de transformação social e intervenção ambiental verdadeiramente exemplares.

Tão diferente é este Portugal real do “reality show” que nos invade através dos media! Esta maneira comunitária e personalizada de lidar com a vida é tão diferente dos maneirismos ideológicos, dos editais sem rosto, dos mega interesses económicos que esquecem as pessoas, das leis que a cidade dita para quem vive no campo. Tão diferente é esta justiça que restaura a realidade daquela que, servindo-se das leis, acusa os pequenos para ilibar a responsabilidade dos grandes. Como é injusto e destrutivo o desprezo com que o “Portugal que interessa” olha para o interior! O nosso grande problema é andar há mais de cem anos a repetir com o Ega: “Lisboa é Portugal (…). O país está todo entre a Arcada e S. Bento!”.

Eis as razões pelas quais vale a pena conhecer o futuro humanizador que está a nascer na Ferraria de S. João. Renasce a vida de árvores e pessoas, que até há um ano se sentiam abandonadas. Fez então todo o sentido celebrar uma Missa de aniversário na qual – sem esquecer os mortos! – se animaram os vivos na confiança de que é possível “fazer novas todas as coisas”. Basta que lancemos a semente à terra com confiança! Aconteceu no Domingo, o dia em que a Vida venceu a morte, ressuscitando!"

Genealogia do Céu.

"[...] Refiro-me à abertura, à bondade e à beleza, irmãs gémeas da verdade."


D. Manuel Clemente
Cardeal Patriarca de Lisboa

Excerto do prefácio do livro “D. António Marto. O Cardeal de Fátima” (Paulus Editora).


23 abril 2018

Dos azares.

por João Maria Condeixa.

"Ao terceiro cancro encomendou o caixão. Queria deixar tudo resolvido e já tinha tido avisos a mais para se manter de braços cruzados. Se não fosse com este havia de morrer com o próximo. E assim se decidiu a arrumar as suas coisas.
Tratou de encomendar a burocracia, encerrar as contas do banco insolúvel, deixar escritas as partilhas que ninguém queria, arrumar pela grossura de lombadas uma vida inteira de livros, empacotar a coleção de hóstias que de vários cantos do mundo tinha optado por não comungar e até escovou as penas ao seu velho amigo Jacob, o papagaio que nunca na vida imitara mais que um arroto. 
Ao longo de meses foi ao mais ínfimo pormenor sempre com receio que o cancro lhe ditasse o fim antes de terminar a tarefa hercúlea a que se tinha proposto. 
Só quando tudo acabou é que olhou para trás a pensar quanto mais lhe faltaria pela frente.
Sentou-se para jantar descansada e na primeira azeitona que tragou um caroço dobrou-lhe a espinha ao entalar-se onde nem o ar passava. 
Sob signo da asfixia sucumbiu em frente à TV que insistia em ter uma cartomante que falava da sorte e dos milhões de euros que ia distribuir nessa noite. De joelhos, tombou e por engasgamento trivial morreu. 
O cão suspirou de tédio e perante a notícia da morte a família desabafou:
- coitada tinha cancro e era o terceiro."