01 outubro 2018

Prateleira de Setembro.


Setembro é um mês feio. Lamento. É mês de vindimas, cantigas e lagares, mas eu não moro nesse paraíso. Vivo nos prédios e no trânsito. Há quem vibre com a agitação dos recomeços e das pastas e dos estojos. Eu suplico.
Pior do que as horas que duram menos é dar de caras com filhos que já fazem picotado, sem ninguém me ter pedido autorização - deixará o leitor acidental passar a nota mais íntima mas não será certamente indiferente ao escandaloso catarro da formiga. Eu lembro-me de fazer picotado! É coisa séria. 
Setembro tem um ar ameno, mas é de extremos - a 1 o da guerra que veio depois da que ia acabar com todas, a 11 o do terror impossível, a 20 o do cisma romano, em todo o mês o ciclone bolivariano. Setembro não é um mês para fracos.

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26 setembro 2018

Como tinha anunciado pela boca dos profetas.

“O Senhor mostrou o poder do Seu amor, como tinha anunciado pela boca dos profetas.”


O Senhor mostrou.
Deus Nosso Senhor, o Todo-Poderoso, o eterno Senhor de todas as coisas, o Criador do Universo, escolhe mostrar-se. E escolhe mostrar-se a mim, pobre mendigo do altar.
Ele é outra coisa, está noutro plano, mas entra no meu, mete-se nas minhas coisas.
Que maravilha. Que impossibilidade. Que demora interior…
Podíamos ficar por aqui e ficávamos bem.

O poder do Seu amor.
Não é a grandeza da Sua glória, ou a Sua omnipotência ou o senhorio de todo o universo. É o seu Amor que escolhe mostrar. É o seu Amor que está uma e outra vez à minha espera. É o seu Amor que me salva e acalma. Que me sustém e pacifica. É o seu colo que me cura quando caio. É a sua verdade que me liberta. É a sua paciência que espera por mim e a sua caridade que me educa. É a sua graça que me alimenta e faz o meu cálice transbordar.

Como tinha anunciado.
Não somos marionetas nas mãos de um mestre de caprichos. A vida não é um jogo de cabra-cega.
Não é automática nem é sempre fácil mas, não tem de ser às cegas. O bom Deus não está entretido a ver-nos correr à toa.
Ele escolhe profetas e faz-se anunciar. Dá-nos pistas e fortaleza. Anima a nossa esperança e usa a nossa própria vida para nos dar o mapa. Não vamos sozinhos.

Se vivêssemos com isto realmente presente, andaríamos de olhar sempre ligeiramente levantado aos céus e sorriso consolado como quando nos bate o primeiro sol da primavera e começamos finalmente a secar os ossos. Tropeçaríamos nas coisas dos homens, é certo. Mas vale mais o sol que uma nódoa negra.

No fim, depois de tudo, para lá dos enganos e soberbas, quando finalmente sou capaz de ver, é Ele que vejo e é o Seu abraço que me espera.
Ele espera pelos pródigos. Ele espera por mim.



25 setembro 2018

Parte da Solução.


A Europa sempre foi uma manta de retalhos de nações e regiões, cerzidas pela matriz judaico-cristã que unifica toda esta diversidade e forma o primeiro bloco dito ocidental. É deste cadinho que nasceram os "valores ocidentais" - outra conversa será chegar a elencá-los. Mas é fácil reconhecer que há um núcleo partilhado.

Um núcleo partilhado. A força da Europa, do Ideal dos Fundadores, está precisamente nesta unidade na diversidade. Está na decisão soberana que cada nação toma de caminhar em conjunto, As realidades e heranças nacionais, as culturas de cada país, são força e riqueza para a União. Não são um problema.

A União estritamente tecnocrática e democraticamente deficitária, a União feita império burocrático que vemos surgir, está muito aquém do Ideal de União de Nações e Povos. Mais do que isso, e mais grave por isso, tenta fundar uma outra nação, uma outra cultura, uma outra realidade supra-nacional, ao arrepio da própria substância que a compõe.
Todo o projecto humano tem a tentação de racionalizar modelos totais e forçar um todo homogéneo, normalmente em doses de xarope amargo. Não é um "mal europeu". Mas está aí e tem de ser resolvido por todos - não é a bater com a porta que vamos lá. 

Ai de nós se não percebermos que o outro não tem de ser igual a mim para ser meu irmão.
Aprendamos a construir a partir da diversidade, sem convergências abusivas.

Não existe "mais Europa" sem prejuízo da originalidade nacional de cada estado que, mesmo sendo um conceito difícil de fixar e descrever, está presente de forma inequívoca em cada país.

Não existe "mais Europa" porque já somos todos intrinsecamente europeus. A história de cada nação não se escreve sem a história das outras nações, sem o esteio partilhado desse grande épico milenar.

Acabemos de vez com esta maneira de pensar a nossa União, olhando para as culturas e idiossincrasias nacionais como entropias ineficientes no grande modelo total.

A Europa não é outra coisa num plano qualquer que transcende os estados. Tem de ser mais intrínseca, e por isso, mais manta de retalhos e menos chapa de um qualquer material uniforme e banal. 

Caminhar juntos, não quer dizer caminhar iguais.



22 agosto 2018

Prateleira de Agosto.


Agosto, mês quieto. Mês de horizontes.
A 14 a batalha que abre o de um novo mundo, cá e lá. A 15 a mãe toda inteira, assumida, recolhida, abraçada no do amor. A 1 o mais querido, o da que me tem e em quem descanso, a de quem falo sempre que o faço.
Mês de horizonte-mar e banho até ser noite na praia-de-graça, revelada, de pais e filhos que preferem o bom ao prático e crescem juntos por isso. Mês de cheiro a férias e mergulhos que lavam por dentro. Mês de ver a vida boa, não a conveniente, no horizonte-mar que é mundo novo.
Rebenta a onda e passa a gaivota, o cão passa e a criança à solta rebenta em gargalhada. A falésia dilata ao sol e eu não vou passar pela vida sem que a vida passe através de mim.

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31 julho 2018

Prateleira de Julho


Julho, mês de Júlio César, calor e revolução.
Nos Estados Unidos, o dia 4 da indepência, em França, o dia 14 da Bastilha, em Portugal o volte-face a 24, o da avenida, nesse outro embate entre constituição e tradição.
Tempo do estio e dos corpos lânguidos de areia e ondulação. Calor e revolução, audácia, amor e reparação. Apeadeiro da tradição que me trouxe, à espera da constituição que quero ser.
Prateleira de cheiro a mar, posta, composta, proposta. Não será tão simples como eu pensava. Não falo de países, mas de esperanças. Quem disse que tudo está perdido?
Eu venho oferecer o meu coração.

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20 julho 2018

Barro Talvez

Te doy una canción.



"Cómo gasto papeles recordándote,

Cómo me haces hablar en el silencio.
Cómo no te me quitas de las ganas
Aunque nadie me ve nunca contigo.
Y cómo pasa el tiempo, que de pronto son años
Sin pasar tú por mí, detenida.

Te doy una canción si abro una puerta
Y de las sombras sales tú

Te doy una canción de madrugada,
Cuando más quiero tu luz
Te doy una canción cuando apareces
El misterio del amor
Y si no lo apareces, no me importa:
Yo te doy una canción

Si miro un poco afuera, me detengo:
La ciudad se derrumba y yo cantando.
La gente que me odia y que me quiere
No me va a perdonar que me distraiga.
Creen que lo digo todo, que me juego la vida,
Porque no te conocen ni te sienten.

Te doy una canción y hago un discurso
Sobre mi derecho a hablar.
Te doy una canción con mis dos manos,
Con las mismas de matar.
Te doy una canción y digo Patria,
Y sigo hablando para ti.
Te doy una canción como un disparo,
Como un libro, una palabra, una guerrilla:
Como doy el amor."

Sílvio Rodriguez

27 junho 2018

Ressuscitando

Pe. Miguel Gonçalves Ferreira, sj


"Talvez seja este gerúndio a forma verbal que melhor descreve o que está a acontecer na aldeia de Ferraria de S. João, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Faz agora um ano que por lá passou o grande incêndio de Pedrogão. Logo na semana seguinte, um grupo de moradores da aldeia meteu mãos à obra para fazer acontecer o futuro, de um modo surpreendente. Eles próprios tinham sido surpreendidos pela maneira como um pequeno bosque de sobreiros se tornou o único aliado dos dois carros de bombeiros que tinham vindo fazer frente às chamas. Entendida a lição dada por estas árvores centenárias, os habitantes iniciaram o projecto de envolver toda a aldeia com um cordão de árvores resistentes ao fogo. Falamos de 12 hectares onde existem 255 parcelas de terreno com 77 proprietários diferentes, dos quais só foi possível localizar 40. Este é apenas mais um retrato desse “outro Portugal” de que tem falado o Presidente da República.

O que mais impressiona neste projecto, que pode ser acompanhado no facebook é a força anímica de três famílias que há alguns anos se mudaram para esta “Aldeia do Xisto”. Esta é, então, a história de como o Pedro e a Sofia, o António e a Maria, o Ricardo e a Catarina conseguiram motivar o Manuel, a Arrelete, a Sandra, a Isabel, o José, a Benilde, a Fátima, a Isilda e os restantes habitantes deste povoado de 40 almas. Esta é a história de um contágio positivo de confiança que envolveu dezenas de pequenos proprietários em mais de 20 pacientes reuniões. Bom seria que não fosse caso único no país! Só assim é possível que, um ano depois da tragédia, haja mais de 400 árvores plantadas, tendo sido removidos os eucaliptos e os pinheiros que bordejavam a aldeia. Estas pessoas sabem que eucaliptos e pinheiros são essenciais para a sustentabilidade da floresta, mas cada árvore no seu lugar. O sonho de um novo futuro foi crescendo com o apoio do Município de Penela, de Associações várias e de uma legião de mais de 500 voluntários vindos de muitas partes que, ao longo deste ano, foram participando num processo de transformação social e intervenção ambiental verdadeiramente exemplares.

Tão diferente é este Portugal real do “reality show” que nos invade através dos media! Esta maneira comunitária e personalizada de lidar com a vida é tão diferente dos maneirismos ideológicos, dos editais sem rosto, dos mega interesses económicos que esquecem as pessoas, das leis que a cidade dita para quem vive no campo. Tão diferente é esta justiça que restaura a realidade daquela que, servindo-se das leis, acusa os pequenos para ilibar a responsabilidade dos grandes. Como é injusto e destrutivo o desprezo com que o “Portugal que interessa” olha para o interior! O nosso grande problema é andar há mais de cem anos a repetir com o Ega: “Lisboa é Portugal (…). O país está todo entre a Arcada e S. Bento!”.

Eis as razões pelas quais vale a pena conhecer o futuro humanizador que está a nascer na Ferraria de S. João. Renasce a vida de árvores e pessoas, que até há um ano se sentiam abandonadas. Fez então todo o sentido celebrar uma Missa de aniversário na qual – sem esquecer os mortos! – se animaram os vivos na confiança de que é possível “fazer novas todas as coisas”. Basta que lancemos a semente à terra com confiança! Aconteceu no Domingo, o dia em que a Vida venceu a morte, ressuscitando!"