17 dezembro 2013

As grávidas despedidas e a Merkel com sete filhos.

por Henrique Raposo
Expresso | 17.12.13
"Tem nome de general da Wehrmacht, mas Úrsula Von der Leyen é capaz de ser a coisa mais fofa inventada pela Alemanha depois dos Playmobil. Esta política da CDU prepara-se para liderar o ministério da Defesa e, no governo anterior, foi Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais. Nesse cargo, destacou-se na defesa da família e das crianças numa sociedade marcada pelo envelhecimento e por uma taxa de natalidade que parece o Mad Max. Neste ponto, porém, o seu exemplo é mais importante do que qualquer política. É que Úrsula Von der Leyen tem sete filhos. O futuro está aqui, o futuro da Europa tem de passar por Úrsula.  
"Não, não estou a dizer que as europeias devem ter sete filhos. Não, a mulher não pode voltar ao cargo de coelhinha parideira dos sonhos molhados do salazarismo. Mas é preciso encontrar um novo equilíbrio entre pais, mães e sociedade em geral. Não sei se repararam, mas nós, europeus, estamos a morrer. E não me venham com a conversa da crise, porque o inverno demográfico começou muito antes de 2008. Tal como Von der Leyen tem defendido, o problema é mental e cultural. Para começar, importa anular a falácia que coloca o papel de mãe em confronto com o papel de mulher de sucesso. Apesar dos sete filhos, esta Merkel gira é obviamente uma mulher de sucesso. Para compreendermos este ponto, talvez seja interessante colocar a Europa debaixo da outra perspectiva ocidental. Devido a uma deslocação profissional do marido, Úrsula viveu uma temporada nos EUA. Nas entrevistas de emprego, os americanos perguntavam-lhe sempre sobre actividades extra CV, se trabalhava em associações voluntárias, se tinha filhos. Resultado? "Deram-me cargos por ter filhos", diz Úrsula. "Na Europa só me dariam esses cargos se não tivesse filhos".
Ela tem razão. Conheço demasiadas portuguesas que sofreram dois tipos de ameaça: foram intimadas a não engravidar pelo patrão ou mesmo pela chefe de repartição pública, ou foram despedidas depois do nascimento do bebé. Um dia destes, irei obrigar todas estas pessoas a prestar declarações em on, porque esta vergonha tem de acabar. Estes chefes são os grandes coveiros do país. Não, os grandes carrascos de Portugal não são os governos, os sindicatos e corporações. O grande sacaninha da pátria é mesmo aquele chefe, privado ou público, que diz a uma rapariga de 28 anos "olhe, não queremos cá bebés, está bem?". Além de imoral, o sacaninha é burro. Como bem explica Úrsula Von der Leyen, uma mulher com vários filhos é provavelmente o melhor trabalhador do mundo. Educar várias crianças ao mesmo tempo cria um cérebro flexível, rápido, eficiente e maduro emocionalmente. Escrevi há pouco que "Úrsula tem sucesso apesar dos filhos". É uma imprecisão. Esta mulher tem sucesso porque tem filhos."

Em sentido!

16 dezembro 2013

A Narrativa do Medo.

Acontecia sempre da mesma maneira. Depois de se dar a conhecer, começava lentamente a fazer-se parte das suas vidas. O primeiro encontro era normalmente casual. O trabalho a seguir era uma coisa subtil, laboriosa e paciente, e variava no tempo ao tempo do compasso dessa dança que é construir pontes entre pessoas.

Depois chegava o dia em que as convidava para um fim-de-semana no monte que tinha, com a desculpa de ser uma escapadela das correrias e dificuldades. Era uma herança de família, na Serra Algarvia e chamava-se Monte das Almas. Das 25 que lá foram nenhuma chegou a voltar.

Primeiro adormecia-as no último dia com o vinho em que tinha deitado o químico – normalmente tranquilizantes de uso veterinário. Depois as vítimas acordavam deitadas na cama, num dos quartos da casa, e à cabeceira da cama, dizia-lhes que estava tudo bem, que descansassem, que tinham desmaiado. A seguir saía do quarto. Por nunca mais voltar, as vítimas tentavam levantar-se para sair e descobriam uma porta trancada, uma janela trancada e, por fim, o silêncio do outro lado quando gritavam para lhes abrirem a porta. A certa altura descobriam que o vidro da janela era inquebrável, que a cama estava aparafusada ao chão e que não se conseguia desmontar, que eram de facto prisioneiras.
Ao terceiro dia entrava num repente pelo quarto, disparava o taser e espancava as vítimas até as deixar no limiar da consciência para depois as atar a uma cadeira e continuar a tortura. O quarto dia era de absoluta inactividade. Era para lhes dar tempo para curarem as feridas com o estojo de primeiros-socorros que deixava em cima da mesa-de-cabeceira quando acabava o tormento. Chamava-lhe o Estojo do Quarto Dia. O nome não tinha nada de original. A criatividade guardava-a toda para as suas predações. Ao quinto começava outra vez. Matava normalmente ao fim de um mês.

A Andreia entrou um dia no posto da GNR mais próximo e disse que se queria entregar. Tinha 35 anos e estava coberta de sangue. Ligaram para a Judiciária e foi quando a conheci. Nunca recebi um depoimento tão sombriamente sereno e lúcido. Primeiro senti apreensão, depois suores frios, depois a sala escureceu um pouco. Cresceu em mim enquanto ela narrava todos os “petiscos”, lenta mas inexoravelmente, o mais absoluto pavor. Tinha diante de mim o próprio Medo.


11 dezembro 2013

Porquê black-tie aqui e white-tie, ali?

...Manoel de Oliveira responde, pela boca de Luís Miguel Cintra:

"[...] Na maneira de vestir sabe muito bem como é que deve ir a um cocktail, como é que se deve ir a uma cerimónia oficial, tudo isso ele sabe e não é só por uma questão de antigamente ser assim, é uma questão de respeito perante aquilo que significa a construção da sociedade. [...]"

Das sementes da Declaração Universal dos Direitos Humanos.



São Tomás de Aquino.

28 novembro 2013

E não façais caso desta cultura do provisório.

Papa Francisco
audiência na praça de S.Pedro.

2. A segunda palavra, tomo-a do rito do Matrimónio. Neste sacramento, quem se casa diz: «Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida». Naquele momento, os esposos não sabem o que vai acontecer, não sabem quais são as alegrias e as tristezas que os esperam. Partem, como Abraão; põem-se juntos a caminho. E isto é o matrimónio! Partir e caminhar juntos, de mãos dadas, entregando-se na mão grande do Senhor. De mãos dadas, sempre e por toda a vida. E não façais caso desta cultura do provisório, que nos põe a vida em pedaços.

Com esta confiança na fidelidade de Deus, tudo se enfrenta, sem medo, com responsabilidade. Os esposos cristãos não são ingénuos, conhecem os problemas e os perigos da vida. Mas não têm medo de assumir a própria responsabilidade, diante de Deus e da sociedade. Sem fugir nem isolar-se, sem renunciar à missão de formar uma família e trazer ao mundo filhos. - Mas hoje, Padre, é difícil… - Sem dúvida que é difícil! Por isso, é precisa a graça, a graça que nos dá o sacramento! Os sacramentos não servem para decorar a vida – mas que lindo matrimónio, que linda cerimónia, que linda festa!... Mas aquilo não é o sacramento, aquela não é a graça do sacramento. Aquela é uma decoração! E a graça não é para decorar a vida, é para nos fazer fortes na vida, para nos fazer corajosos, para podermos seguir em frente! Sem nos isolarmos, sempre juntos. Os cristãos casam-se sacramentalmente, porque estão cientes de precisarem do sacramento! Precisam dele para viver unidos entre si e cumprir a missão de pais. «Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença». Assim dizem os esposos no sacramento e, no seu Matrimónio, rezam juntos e com a comunidade, porquê? Porque é costume fazer assim? Não! Fazem-no, porque lhes serve para a longa viagem que devem fazer juntos: uma longa viagem, que não é feita de pedaços, dura a vida inteira! E precisam da ajuda de Jesus, para caminharem juntos com confiança, acolherem-se um ao outro cada dia e perdoarem-se cada dia. E isto é importante! Nas famílias, saber-se perdoar, porque todos nós temos defeitos, todos! Por vezes fazemos coisas que não são boas e fazemos mal aos outros. Tenhamos a coragem de pedir desculpa, quando erramos em família… Algumas semanas atrás, nesta praça, disse que, para levar por diante uma família, é necessário usar três palavras. Três palavras: com licença, obrigado, desculpa. Três palavras-chave! Peçamos licença para não ser invasivos em família. «Posso fazer isto? Gostas que faça isto?» Com a linguagem de quem pede licença. Digamos obrigado, obrigado pelo amor! Mas diz-me: Quantas vezes ao dia dizes obrigado à tua esposa, e tu ao teu marido? Quantos dias passam sem eu dizer esta palavra: obrigado! E a última: desculpa. Todos erramos e às vezes alguém fica ofendido na família e no casal, e algumas vezes – digo eu – voam os pratos, dizem-se palavras duras… Mas ouvi este conselho: Não acabeis o dia sem fazer a paz. A paz faz-se de novo cada dia em família! «Desculpai-me»…, e assim se recomeça de novo. Com licença, obrigado, desculpa! Podemos dizê-lo juntos? (respondem: Sim!). Com licença, obrigado, desculpa! Pratiquemos estas três palavras em família. Perdoar-se cada dia!


Na vida, a família experimenta muitos momentos felizes: o descanso, a refeição juntos, o passeio até ao parque ou pelos campos, a visita aos avós, a visita a uma pessoa doente... Mas, se falta o amor, falta a alegria, falta a festa; ora o amor é sempre Jesus quem no-lo dá: Ele é a fonte inesgotável. Ele, no sacramento, dá-nos a sua Palavra e dá-nos o Pão da vida, para que a nossa alegria seja completa."

22 outubro 2013

Encontro.

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.»
(Deus Caritas Est, 1)

«A nós, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperança que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida.»
(Spe Salvi, 3)

«A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro.»
(Lumen Fidei, 1)


Durão de objectiva em punho.


Só um tipo com pinta de Little Italy é que podia ser o fotógrafo de guerra Robert Capa.
Faria hoje cem anos e era húngaro.


19x9.

por Henrique Raposo | Expresso | 21.10.13
"O Futuro e os seus Inimigos é um ensaio relevante para os nossos dias de crise. Daniel Innerarity é particularmente feliz na forma como encontra causas culturais e morais para os efeitos económicos. Ou seja, a crise económica do Ocidente é o resultado de escolhas culturais e morais das nossas sociedades. Uma dessas causas é o homem pós-moderno, o sujeito que vive na "cultura da urgência", o eu construído na "simultaneidade" e na "imediatez". Segundo este pensador espanhol, o indivíduo do século XXI está dominado "pelo desejo de satisfação imediata e mostra-se intolerante perante a frustração; exige tudo já, salta de um desejo para outro com impaciência crónica (...) é incapaz de se inserir no mais insignificante projecto ou qualquer continuidade e exige do presente o que deveria ser esperado do futuro". Innerarity não podia estar mais perto da verdade.
Tal como já tentei explicar,  a pós-modernidade teve a sua versão económica no indivíduo viciado no crédito - e convém recordar que o vício do crédito, pessoal e estatal, é a causa mais funda desta crise. As nossas sociedades passaram a encarar a poupança como uma tirania inaceitável, porque poupar implica uma distância temporal entre o acto de querer e o acto de comprar. A sociedade do eu pós-moderno com um cartão de crédito no coldre aboliu essa distância. Há uns décadas valentes, o meu pai poupou alguns meses para comprar uma TV a cores. Ao longo das últimas décadas, essa espera conservadora tornou-se inconcebível. A malta compra no momento em que deseja comprar. Este vício no crédito e a consequente ausência de poupança revelam um "presente vicinal, autárquico, auto-referencial e inquieto", um presente que não tolera lições do passado e que despreza o futuro e as gerações vindouras.
Todavia, a análise de Innerarity é frágil num ponto: as causas desta moralidade volátil. O Futuro e os seus Inimigos explica a volatilidade das nossas sociedades apenas pelas parangonas tecnológicas, as mudanças de paradigma comunicacional, etc. Ora, isso é apenas a capa tecnológica. O indivíduo pós-moderno não nasceu na internet (um meio quantitativo), mas sim na educação qualitativa. De forma consciente, as escolas e faculdades ocidentais criaram uma geração no ódio ao passado (contra as narrativas da direita) e no desprezo pelo futuro (contra as narrativas da esquerda clássica). Pior: a memória foi abolida na escola, porque impede a livre circulação da sacrossanta imaginação do petiz. A própria tabuada e o cálculo matemático foram diabolizados e os meninos não têm de aprender matemática, só têm de aprender matematicamente. Ou seja, até a realidade física mais imutável é alterada para não ferir o ego ultraprotegido do petiz. Entretanto, as escolas indianas obrigam os alunos a saber a tabuada até ao 19. 19x9, sff.  A "cultura da urgência" e o consequente sentimentalismo nasceram aqui, nesta coutada onde o eu vive num mundo onde não existem as leis da gravidade da economia, da história, da vidinha. 


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/saber-a-tabuada-ate-ao-19x9=f836789#ixzz2iRhvUJbH

15 outubro 2013

Faz hoje um ano que não foi.

Esteve para ir. Mais ou menos uma semana no fio da navalha.
Fez por ficar, ou, fizeram por ele, ou, um travo de cada coisa. Não era, passe a trivialidade da expressão para descrever a coisa menos trivial deste mundo, a hora dele. Faz hoje um ano que ficou por cá e nós com ele e todos juntos virados ao futuro de uma família que sabe ser essa união a sua maior riqueza. Continuamos. De maneira diferente, mas continuamos. Faz hoje um ano que nos foi dado continuar.

Hoje é dia de Graças, hoje é dia de dar Graças.


do que tá muita bom.

Dois anos de essejota, hoje.

10 outubro 2013

14 setembro 2013

Atenda!

pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
no i de 14 de Setembro, 2013

"Nas igrejas, é frequente o aviso a pedir que se desligue o telemóvel. É razoável, porque atender uma chamada, num templo, é uma falta de respeito para com Deus. Mas, talvez não seja muito católico porque, do outro lado, pode estar... o Papa!

Não sei o cognome com que ficará na História, mas Francisco bem poderia ser designado o Papa das surpresas. Desde que iniciou o seu ainda breve pontificado, multiplicaram-se os gestos inéditos: recém-eleito, foi, pelo seu próprio pé, pagar uma conta; trocou a viatura oficial pelo autocarro em que viajavam os cardeais; preferiu viver na casa de Santa Marta, em vez de no apartamento pontifício, etc.

Um capítulo especial das benditas extravagâncias do Papa Francisco respeita aos seus telefonemas. Logo após a sua eleição ligou, directa e pessoalmente, o que não é suposto num Papa, ao superior geral da Companhia de Jesus, a que pertence. E agora telefonou a uma jovem grávida, abandonada pelo progenitor do seu filho, para lhe dar apoio espiritual e humano. 

Imagino Jesus assim. Solene, quando proclama as bem-aventuranças, afirma que é Deus ou, diante de Pilatos, se intitula rei. Mas nunca frio, ou distante: toca o leproso que cura; fala a sós com a samaritana, junto ao poço de Sicar; repara em Zaqueu, empoleirado numa árvore, e vai a sua casa, apesar de ser a de um pecador.

Ser pastor é ser, sobretudo, pai. Por isso o Papa é tão "papá" de todos e de cada um de nós. Para que cada um de nós o seja do seu próximo.

Portanto, se receber uma chamada de um número desconhecido, atenda: pode ser o Papa! E, se não for, seguramente será Deus, que nos chama através das necessidades dos outros."

19 julho 2013

Liturgia do bom tempo.


"Do suor dos homens e do Amor de Deus vem a cerveja"
São Arnaldo de Metz, bispo, séc.VII

11 julho 2013

sobre o post anterior.

foi no alvo? hum... bom, juridico-constitucionalmente depende. Além disso as personalidades de relevo de médio prazo, coiso....

04 julho 2013

Umbigos.



Fumo branco. Acordo. Paz e Amor.
Iminências de desastre, que podem continuar, porque suas iminências não se dignam continuar.
Continuemos nós, o país, como podemos.

Tudo isto e a confirmação última de que Portas only cares about Portas e de que Passos achava mesmo que tinha subalternos de coligação.
Um problema portanto de umbigos.


Comédia.

Acompanhar a actualidade política equivale a ver isto:



na plateia também estão sentados os credores.

humble pie.

O Pedro, o Paulo e a Maria.

O Pedro e o Paulo eram amigos, ou pelo menos, coligados. Depois um dia o Pedro conheceu a Maria e achou-lhe graça. Tanta que queria dar-lhe um cativo na sala de jogos. O Paulo pediu ao Pedro que não fizesse isso porque não gostava do vestido em tons de verde-swap com que ela apareceu. O Pedro disse ao Paulo que ia ser assim na mesma. O Paulo e o Pedro zangaram-se a sério.
O problema desta vez é que o Pedro e o Paulo acharam que não era preciso pensar duas vezes e a Maria coitada, ficou a fazer vozes na cerimónia de entrega do cativo. Calhou cócó. Aos mercados esses, de tão nervosos que ficaram, calhou diarreia...


03 julho 2013

"farei tudo, absolutamente tudo para que assim seja." - menos ouvir o CDS.

É bom não esquecer que embora o nosso PM tenha marcado um golo (talvez o primeiro desde assumiu a pasta), com a declaração de ontem à noite, morreu pela boca, como todos os peixes. Se o PM quisesse fazer tudo, absolutamente tudo para manter a estabilidade e a confiança no país, teria ouvido o CDS aquando desta última nomeação e em tantos outros episódios anteriores. Até mesmo os meninos mimados e birrentos têm de ser ouvidos quando em coligação. Ainda assim, o romance persiste. Afinal há espaço para negociar. Talvez Meat Loaf tenha ajudado?

dos fedelhos.


por Henrique Raposo

Dos últimos dias.

...tudo corria bem. Depois calhou Harlem Shake na área.

02 julho 2013

E o Big Show está no ar...!


da Redundância.

Arménio Carlos insinuar que derrotou o governo é como a formiga que um dia entalou a pata no carril do comboio e ao ver que não se ia soltar a tempo disse:
- Que se lixe! Se descarrilar descarrilou!

Portas... ó Portas... abriste-as de par em par para deixar entrar o Suão do colapso.

Como é que alguém manda abaixo o governo depois de ter passado a nº2, à frente do ministro das finanças, podendo assim ganhar ascendente sobre o mesmo para iniciar, ou lutar por iniciar, um novo ciclo económico?


Como é que alguém diz que segurar uma AD e um governo não é pessoalmente exigível?

Não sabia de antemão as capacidades no máximo medianas do PM?!
Não sabe o risco de termos o doutor Xibanga-Seguro como PM?!

Como é que alguém não é capaz de engolir os sapos necessários para preserverar e influenciar, com o ganho de espaço de manobra depois da saída de um peso pesado como Gaspar, as decisões do governo para salvaguardar os superiores interesses nacionais e dá primazia ao jogo político?!

A 1ª, 2ª e 3ª condição necessária à retoma: estabilidade política.
Perdemos tudo em menos de 24horas...

11 junho 2013

Thomas More.


"[...] What matters is not that it's true, but that I believe it; or no, not that I believe it, but that I believe it."

07 junho 2013

[Mãe de Deus]

Mãe de Deus, porque tu a Deus creaste,
Filha de Deus, pois Elle te creou,
Irmã de Deus, pois Elle te enviou,
Sposa de Deus, pois virgem tu ficaste,


Eterna, transcendente e fragil haste
Que abre ao alto em Mulher, na que baixou
Á terra, a dar á Eva que peccou
A seiva do carinho que lhe achaste.


És tu que dás ás mães o - afago
És tu -
Tu és a alma da Mulher -


E se o que penso é com amor affim,
E em minha inspiração sinto o teu beijo,
Mãe, mãe de Deus, mãe do Divino em mim.


Fernando Pessoa

07 maio 2013

Bicho Carpinteiro.


Jake Bugg.
Nome que se diz em quase duas sílabas. Tenso e directo. Das letras à música, à sonoridade toda e à figura, Jake Bugg é guitarra e coisas para dizer. Tout court. Começou a tocar aos doze anos e lançou o primeiro albúm que aterrou no primeiro lugar das tabelas inglesas em Outubro do ano passado. Já tocou em Glastonbury, já deu música a anúncios, passa nas rádios inglesas, está na calha para um Brit Award da categoria British Breaktrough Act e já foi ao Conan. Tem 19 anos.


Lightning Bolt entranha-se. Abre com três acordes de rajada que nos deixam logo a bater o pé ao ritmo da expectativa e a cada quarto verso o menino Bugg repete uma e outra vez que de repente veio um raio que lhe acertou em cheio; que disso lhe ficou uma incapacidade de não ser o que lhe dizem as entranhas que tem de ser, até ao limite. Quer o vinho, não lhe chega água. Nesta música, Bugg não se encosta. Não consegue. A vida não pára e ele não vai ficar para trás.

Devíamos ser assim: permanentemente aturdidos pelo impacto de um raio que desperta a alma e a inteligência e a vontade e mais tudo o resto. Devíamos estar a zarpar e a voar e a remar em vez de ir andando de coisa em coisa, cheios de cuidado para não cair. Que nojo de gente que somos, que nem a verdade nos acorda. Aparência e pertencer valem mais que sangue nas veias até morrer.

Eu quero preferir as cantigas do menino Bugg que nos canta isto tudo com uma espécie de frenezim eléctrico metido no sangue, a sair aos acordes e na voz áspera. O Jake Bugg é bicho-carpinteiro. E isso tá muita bom.

23 abril 2013

22 abril 2013

Equidades e Falácias

Isto é que desigualdade: desempregados da função pública são apenas 1,9% do total

por Henrique Raposo
no Expresso Online


"As falácias do Tribunal Constitucional (TC) não se esquecem. Faz sentido, sim senhor, falar na "falta de equidade" entre trabalhadores dos sectores privados e a função pública. Mas o sentido da "falta de equidade" não é aquele que foi dado pelos juízes. Porque é que a ADSE tem sido um privilégio da função pública? Ou seja, por que razão a melhor parte do SNS pertence somente a um grupo da população? Por que razão uma parte da população está protegida do desemprego? Por que razão um funcionário público entra no "quadro de excedentes" quando a sua repartição é fechada ou requalificada? Por que razão este funcionário público excedentário tem esta rede inexistente na vida da restante população? Perante estes factos que mostram a intrínseca desigualdade da sociedade, como é que os juízes podem dizer o esforço de consolidação está a cair em demasia no colo da função pública? Convém recordar as almas do Ratton que o coração da consolidação em curso está nas falências e no consequente desemprego de muitos sectores privados. Pela contas de Paulo Trigo Pereira (entrevista Sol), tínhamos 700 mil desempregados registados no continente (Fevereiro). Deste conjunto, apenas 1,9% tinha origem na função pública. 98.1% do desemprego é oriundo dos sectores privados. Por outras palavras, não existe qualquer equidade à partida entre funcionalismo público e trabalhadores privados. É por isso que esta vitimização constitucional dos funcionários públicos chega a ser ofensiva para quem perdeu tudo nos últimos anos. Perder 20% do poder de compra é mau? Experimentem perder tudo. Experimentem perder uma vida num par de meses. Pois, já sei, esta dor é inconstitucional para certas partes da população."


Amarante won't back down, Petty style.

04 abril 2013

páscoa.


Não tremas mais, prepara-te! 
Prepara-te para a vida! 
 Amargura que tudo penetra, 
Libertei-me de ti! 
Morte que tudo destrói, 
Foste conquistada! 
Nas asas que ganhei, voarei com amor ardente, rumo à luz que nenhuns olhos jamais viram! 
Morrerei para encontrar a vida! 
Erguer-te-ás mais uma vez! 
Sim, meu coração, erguer-te-ás outra vez num instante! 
O que venceste, vai levar-te a Deus!

Papa Francisco dixit.


excertos da autobiografia em formato livro-entrevista de 2010 "El Jesuita" de Sergio Rubin e Francesca Ambrogetta publicados num artigo do chiesa.expressonline.it

"En otro pasaje de la entrevista Bergoglio critica esas homilías "que deben ser kerygmáticas con algo de catequesis, pero que terminan siendo morales, a lo sumo catequéticas. Y dentro de la moral – aunque no tanto en las homilías como en otras ocasiones – se prefiere hablar de la moral sexual, de todo lo que tenga algún vínculo con el sexo. Que si esto se puede, que si aquello no se puede. Que si se es culpable, que si no se es culpable. Y entonces relegamos el tesoro de Jesús vivo, el tesoro del Espíritu Santo en nuestros corazones, el tesoro de un proyecto de vida cristiana que tiene muchas otras implicancias más allá de las cuestiones sexuales. Dejamos de lado una catequesis riquísima, con los misterios de la fe, el Credo y terminamos centrándonos en si hacemos o no una marcha contra un proyecto de ley que permite el uso del preservativo". Y más aún: "Creo sinceramente que la opción básica de la Iglesia, en la actualidad, no es disminuir o quitar prescripciones o hacer más fácil esto o lo otro, sino salir a la calle a buscar a la gente, conocer a las personas por su nombre. Pero no sólo porque esa es su misión, salir a anunciar el Evangelio, sino porque el no hacerlo le produce un daño. [...] Es cierto que, si uno sale a la calle, le puede pasar lo que a cualquier hijo de vecino: accidentarse. Pero prefiero mil veces tener una Iglesia accidentada a una Iglesia enferma”." 


Não se trata de facilitar ou "adaptar" a nossa Fé aos tempos de agora. Trata-se isso sim, de anunciar o tesouro de Jesus Vivo e com isso fazer com que o próximo queira aderir à Fé na sua totalidade. Porque é numa lógica de Amor e rumo ao Amor infinito de Jesus que a Igreja nos convida a tantas atitudes de contra-corrente nas questões morais. A lógica "não me toques", a abordagem a esses temas pela negativa não é o discurso da Igreja. É uma caricatura que o mundo faz dela. É consolador quando o nosso Papa nos diz isto com tanta clareza e sem facilitismos.

mantra.


02 abril 2013

26 março 2013

Bagão Félix dixit.

"Não o vou ver. Não tenho interesse. José Sócrates sempre teve um contacto reduzido com a realidade, com a verdade."

em entrevista ao Grande Jornal da RTP1, reposto no 24h da RTP2.
Bagão Félix dixit e os portugueses que resistem ao charme do "circo", agradecem.

22 março 2013

do Papa Francisco e das confusões.

Parece-me absurdo pensar que o Papa Francisco vai entrar em ruptura com a Tradição da Igreja só porque de vez em quando mostra um lado mais informal, ou é sul-americano, ou é jesuíta. É um erro pensar que existe uma oposição necessária entre cuidar da Beleza da Liturgia e focar a atenção e o "programa" na simplicidade e na atenção aos pobres. Há certos elementos que são do protocolo e o protocolo é uma coisa muito diferente da Tradição. Mais do que uma determinada forma, interessa o conteúdo que dá sustento a essa mesma forma. Usar de categorias políticas para falar das correntes de pensamento e dinâmicas da Igreja é um erro. Achar que os temas "fracturantes" e "apetitosos" o são para lá dos media é não conhecer a Igreja.


É preciso Amor e Caridade quando falamos do Papa, de qualquer Papa. É isso que preserva a Fidelidade sem termos de abdicar da própria inteligência e capacidade crítica. Não o fazer pode rapidamente resvalar para a infidelidade e, a seguir a isso, abre-se o flanco por onde entra a tentação de nos fazer fechar nas nossas igrejas quentinhas e particulares.

E essa, é a maior confusão de todas.

21 março 2013

Vampire Weekend - Step.


Já circula no teu-tubo o novo single "Step" dos Vampire Weekend.
Na verdade, é um double A-side single em que à "Step" se junta a "Diane Young".


Disfrute sim? Tá... Xaaau!

04 março 2013

António Borges dixit.

Disse o António Borges ao Dinheiro Vivo que na última década não se investiu, esbanjou-se dinheiro. Em infraestruturas, principalmente. Isto em resposta à quebra de 50% no investimento que o jornalista realçou. De facto, indicadores e rácios de acompanhamento de históricos não passam de números numa tabela, por muito apurados e fiáveis que sejam. É preciso ver o que está por trás. Investir não é só gastar dinheiro numa coisa. Investimento pressupõem retorno. Não é um eufemismo para gastar dinheiro. É uma aposta hoje para ganhar amanhã.

Só que nós precisávamos de ter mais autoestradas... É isso que eles não percebem. A possibilidade de escolher entre três alternativas para fazer 300km que não devem distar mais de 100km umas das outras era um sinal claro de que éramos desenvolvidos e ricos... não era?



Bom... isso e certas e determinadas organizações precisarem de certos e determinados resultados. Mas isso são outros quinhentos.

01 março 2013

"O que é que este terramoto provocou em nós?"


por Matilde Torres Pereira,

No dia em que Bento XVI se despediu dos fiéis, os jovens que acompanharam a sua vinda a Portugal em 2010 voltaram a encontrar-se, agora numa igreja de Lisboa. À saída, cada um recebeu um cartão com o nome de um dos cardeais do conclave, que inclui uma oração especial.

"São 19h00 em Portugal, 20h00 em Roma, e, a partir deste momento, a Igreja entrou em Sede Vacante." Foi uma voz grave que ressoou dos altifalantes montados à porta da Igreja da São Domingos, em Lisboa, a chamar a multidão que se juntou à porta para a missa de agradecimento a Bento XVI, agora Papa Emérito. Passadas as faixas azuis penduradas à entrada, a visão é a de uma igreja que parece agora tão pequena quando é na realidade muito grande, porque há mais de duas mil vozes a dizer "obrigado".
No dia em que Bento XVI deu a derradeira bênção nas varandas de Castel Gandolfo, os jovens que o acompanharam na sua vinda a Portugal em 2010 voltaram a encontrar-se para lembrar o pontificado que agora termina. Miguel Machado, da organização, explica que vêm de vários movimentos e sectores diferentes - "são pessoas mais conservadoras, mais progressistas, que querem coisas mais malucas ou mais sérias" - e que pretendem "apagar-se" para ficarem unidos perante o Papa.
A celebração começou com a projecção de um vídeo em dois ecrãs gigantes montados em cada um dos lados do altar, um filme com momentos da passagem do Papa por Portugal, da sua missa no Terreiro do Paço e a lembrar a força dos 11 mil jovens que caminharam nesse dia pela Avenida da Liberdade ao encontro de Bento XVI. No final do vídeo, sobe ao ambão um rapaz, que diz simplesmente "estamos aqui para agradecer ao Papa, não é mais que isto".
Seguiu-se a missa, sempre com pessoas a chegar, sentadas nos bancos, no chão, em pé, e cada vez de idades mais variadas. Mais perto da porta, juntaram-se pessoas mais velhas, casais e até curiosos que se deixaram ficar.
"A notícia da resignação apanhou-nos a todos de surpresa, de alguma maneira estremeceu-nos, acordou-nos. O que é que este terramoto provocou em nós?", perguntou à congregação o padre Diogo Barata, um dos muitos alinhados no altar. "Em primeiro lugar, uma onda espontânea de agradecimento, com o coração", prossegui o sacerdote. Depois, o padre lembrou os milhares que estiveram com Bento XVI no Terreiro do Paço e lançou o desafio: "Um por cento de 11 mil são 1.100. Um por cento de 1.100 são 110. O que aconteceria se 110 de vocês fossem santos?".
O padre Diogo Barata deixou mais algumas ideias aos jovens, lembrou o pontificado de Bento XVI e terminou com o mote do movimento, exibido num enorme estandarte pendurado do coro da igreja: "Eu acredito. E quem acredita em Deus nunca está só".
A música começou a ecoar na missa. Foram precisos dez pontos diferentes para dar a comunhão. No final, ouviu-se um pedido feito por um dos presentes. "Queremos juntar-nos quando for o 'habemus papam', só não sabemos bem como. Façam por estar atentos às redes sociais."
Centenas de pessoas deixaram então a igreja, mas outros ficaram em oração pelo Papa Emérito e pelo conclave. À saída, cada um recebeu um cartão azul com o nome de um dos cardeais que vai participar no conclave, com uma prece ao Espírito Santo pela "assistência aos que têm a missão de eleger o sucessor de Pedro".
"Tudo o que rompe e abre janelas é óptimo"
No exterior da Igreja, o coração de alguns abriu-se. "Bento XVI foi um Papa exemplar, um Papa de todos nós. Foi um pontificado numa altura difícil, principalmente nestes últimos anos, e acho que o seu trabalho, mesmo já numa altura debilitada, foi óptimo", considera Guilherme, um estudante de 22 anos.
Para José Spínola, um seminarista de 28 anos, a resignação foi inspiradora. "Foi um Papa que marcou muito, principalmente agora o pedido de resignação dele. Primeiro, porque não é o habitual, mas principalmente destaco o facto de um homem como o Papa, intelectual como é, ir para um mosteiro viver e dedicar o resto da vida à oração e reflexão. Acho isso muito bonito, é de louvar e dizer 'bendito seja Deus'."
Já Íris, uma decoradora de 49 anos, comoveu-se com a juventude que foi homenagear Bento XVI. "Esta alegria, este entusiasmo… Vermos os jovens dar este apoio lindo é contagiante e é impossível não estar aqui", começa por dizer.
"Vamos orar para que o Espírito Santo ilumine o próximo Papa e que esteja pronto para esta missão que não é fácil. Vemos agora Bento XVI tão cansado e triste… Foi lindo o que ele fez. Ele teve coragem e isso para mim bastou. Uma atitude digna, louvável. Eu estou com ele", conclui.
Para Miguel Machado, da organização, a resignação mexe com a Igreja. "Tudo o que rompe e abre janelas novas na Igreja é óptimo e o que este Papa está a fazer é um sinal para um mundo."

E o que fica deste encontro que juntou tanta gente? Miguel Machado responde. "Fica uma grande esperança no futuro, na Igreja jovem, que anda de 't-shirt', e isso é bonito."

24 fevereiro 2013

Oscar's 85th.


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22 fevereiro 2013

Gozar com a fé Cristã - uma modernice com 170 anos.


por Henrique Raposo
no expresso, 22.02.2013


Quando surge na agenda um tema relacionado com a Igreja, o engraçadismo anti-cristão vem logo ao de cima e acaba por dominar a atmosfera das conversas e debates. Estou a falar daquele gozo permanente em relação ao Papa e cristianismo, em relação à própria fé. Não, não estou a falar de críticas e perguntas sérias e sólidas. Isso seria outra conversa, conversa com nível. Estou a falar do gozo fácil, do nariz empinado que nem sequer admite diálogo com o crente, estou a falar da piadola que se julga moderna. Mas será assim tão moderna? Em 1843, Kierkegaard iniciou o seu Temor e Tremor com esta irónica arrancada: "ninguém hoje se detém na fé (...) passarei, sem dúvida, por néscio se me ocorrer perguntar para onde por tal rumo se caminha". Ou seja, o nosso ar do tempo é uma velharia com, pelo menos, 170 anos. A crença na transcendência é um saco de boxe para a gozação cínica há mais de século e meio.
Moral da história? Os nossos modernaços, que gostam de transformar a fé num sinónimo de idiotice, não têm nada de moderno. São sucateiros de um ferro-velho mental.


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/gozar-com-a-fe-crista-uma-modernice-com-170-anos

21 fevereiro 2013

O fascismo do Grândola Vila Morena.


por Henrique Raposo
Expresso, 21.02.2013

Sophia de Mello Breyner cunhou uma expressão engraçada para classificar as tácticas inquisitoriais dos companheiros de estrada do PCP: o "fascismo do anti-fascismo" . Esta intolerância de esquerda foi criada antes do 25 de Abril e, como é óbvio, conheceu o seu esplendor no PREC. Mas, volta e meia, a agressividade dos virtuosos reemerge. Nos últimos dias, por exemplo, têm caído alguns pinguinhos: meninos e meninas têm usado "Grândola Vila Morena" como forma de calar outras pessoas. Uma música criada para promover a liberdade de expressão foi assim transformada numa arma contra a liberdade de expressão.

Os novos cantadeiros do "Grândola Vila Morena" dizem que são anti-fascistas. Bom, sobre isso nada sei, mas sei que são bons aprendizes de fascistas. Têm todas as sementes do bicho. Em primeiro lugar, revelam uma total intolerância em relação ao outro lado; há que malhar na "direita" (assim mesmo: a "direita", um bloco compacto, monolítico, desumanizado, desprezível e espezinhável). Em segundo lugar, respiram e transpiram ódio, um ódio que escorre pelos cartazes, pelos rostos, pelas vozes. E, de forma mui fascista, esta malta tem orgulho nesse ódio. Aquilo que os define é o amor que têm pelo seu ódio, adoram odiar a "direita" ou seja lá o que for. Esta elevação do ódio à categoria de virtude é a marca do fascista, seja ele castanho ou vermelho. Em terceiro lugar, temos a consequência lógica das duas premissas anteriores: o culto da violência. Se a "direita" é espezinhável, se não vale a pena ouvir o outro lado, se o ódio é uma virtude que confere uma legitimidade superior, então a violência é legítima e não faz mal dar uns carolos no Relvas. Aliás, só faz bem dar uns tabefes no Relvas.

Para terminar, só queria dizer que gosto bastante deste PREC cantado. É que assim já não tenho de recorrer à história para explicar a profunda intolerância das extremas-esquerdas portuguesas . Agora basta-me apontar para o presente. Ela, a intolerância progressista e revolucionária, está aí, anda por aí. Até peço uma coisa: aumentem o volume da violência, continuem a mostrar que não sabem viver em democracia, que não sabem aceitar opiniões contrárias, continuem a ameaçar, continuem a ser fascistazinhos de vão de escada.