18 fevereiro 2014
17 janeiro 2014
Ostrogodos.
Hoje há bué séculos conquistaram e saquearam Roma subornando a guarnição da Isáuria.
SHAME ON YOU SUCKER!
13 janeiro 2014
10 janeiro 2014
09 janeiro 2014
Contradição.
"A coragem é uma contradição nos termos: significa um forte desejo de viver que toma a forma de disposição para morrer."
G.K.Chesterton
07 janeiro 2014
Eusébio e a minha antipatia por Mário Soares.
por Henrique Raposo | Expresso | 07.01.2014
Tenho vários problemas com o soarismo, essa visão (errada) da história , mas acima de tudo tenho uma enorme antipatia por Mário Soares. Não, não é uma questão política. É uma reacção epidérmica. O perfil pessoal de Soares provoca-me um genuíno desconforto. Porquê? Porque não tenho saco para a snobeira que Mário Soares revela em cada gesto e em cada palavra, não tenho paciência para os ares de menino de Lisboa nascido em berço de oiro e em círculos políticos. As declarações que fez no dia da morte de Eusébio provam isso novamente. Repito: novamente. Eusébio é só o caso mais recente. O desprezo por Cavaco, o arrivista de Boliqueime, é evidente há décadas e está cada vez pior. Além do desprezo por seres inferiores na hierarquia social, Soares também aprecia o bom e velho marialvismo: apelidou de "dona de casa" a francesa Nicola Fontaine, essa intrometida que venceu Soares na eleição para a presidência do Parlamento Europeu. E, já agora, não me esqueço da posição abjecta que Soares tomou em relação a Snu Abecassis. Eusébio, Fontaine, Cavaco, Snu: episódios que revelam uma pessoa que não quero à minha mesa ou junto do meu whisky.
Fala-se muito da tal "direita social", um fenómeno que merece pancadinhas, é verdade. Mas também existe uma "esquerda social". A snobeira é muito democrática. Mário Soares é tão queque como os Espírito Santos que brincam aos "pobrezinhos". Nas suas campanhas dos anos 70 e 80, Soares conseguiu esconder os tiques de superioridade com a falsa bonacheirice ("o bochechas"), com as palmadinhas, abracinhos e palavrinhas porreiras. Porém, quando lemos relatos e memórias do período, salta logo à vista o absurdo paternalismo de um homem que se julgava no direito natural de mandar em Portugal. Hoje em dia, sem a necessidade de contactar eleitoralmente com as massas, a snobeira de Soares tirou as luvas de pelúcia, está à vista de todos.
Eu respeito o papel de Soares em 75 e, acima de tudo, em 83-85, quando fez de Merkel. Mas não me peçam para gostar da personagem, porque não tenho de gostar, aliás, tenho o dever de não gostar da figura de Soares tendo em conta o seu comportamento de grã-fino. Escrevo isto sem grande prazer, porque os senadores deviam comportar-se como senadores, e não como dondocas.
Deus não aperta que esmague.
"Os pescadores sabem que o mar é perigoso e a tempestade terrível, mas nunca acharam que estes perigos fossem razão suficiente para ficarem em terra."
Vincent van Gogh
17 dezembro 2013
As grávidas despedidas e a Merkel com sete filhos.
por Henrique Raposo
Expresso | 17.12.13
"Tem nome de general da Wehrmacht, mas Úrsula Von der Leyen é capaz de ser a coisa mais fofa inventada pela Alemanha depois dos Playmobil. Esta política da CDU prepara-se para liderar o ministério da Defesa e, no governo anterior, foi Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais. Nesse cargo, destacou-se na defesa da família e das crianças numa sociedade marcada pelo envelhecimento e por uma taxa de natalidade que parece o Mad Max. Neste ponto, porém, o seu exemplo é mais importante do que qualquer política. É que Úrsula Von der Leyen tem sete filhos. O futuro está aqui, o futuro da Europa tem de passar por Úrsula.
"Não, não estou a dizer que as europeias devem ter sete filhos. Não, a mulher não pode voltar ao cargo de coelhinha parideira dos sonhos molhados do salazarismo. Mas é preciso encontrar um novo equilíbrio entre pais, mães e sociedade em geral. Não sei se repararam, mas nós, europeus, estamos a morrer. E não me venham com a conversa da crise, porque o inverno demográfico começou muito antes de 2008. Tal como Von der Leyen tem defendido, o problema é mental e cultural. Para começar, importa anular a falácia que coloca o papel de mãe em confronto com o papel de mulher de sucesso. Apesar dos sete filhos, esta Merkel gira é obviamente uma mulher de sucesso. Para compreendermos este ponto, talvez seja interessante colocar a Europa debaixo da outra perspectiva ocidental. Devido a uma deslocação profissional do marido, Úrsula viveu uma temporada nos EUA. Nas entrevistas de emprego, os americanos perguntavam-lhe sempre sobre actividades extra CV, se trabalhava em associações voluntárias, se tinha filhos. Resultado? "Deram-me cargos por ter filhos", diz Úrsula. "Na Europa só me dariam esses cargos se não tivesse filhos".
Ela tem razão. Conheço demasiadas portuguesas que sofreram dois tipos de ameaça: foram intimadas a não engravidar pelo patrão ou mesmo pela chefe de repartição pública, ou foram despedidas depois do nascimento do bebé. Um dia destes, irei obrigar todas estas pessoas a prestar declarações em on, porque esta vergonha tem de acabar. Estes chefes são os grandes coveiros do país. Não, os grandes carrascos de Portugal não são os governos, os sindicatos e corporações. O grande sacaninha da pátria é mesmo aquele chefe, privado ou público, que diz a uma rapariga de 28 anos "olhe, não queremos cá bebés, está bem?". Além de imoral, o sacaninha é burro. Como bem explica Úrsula Von der Leyen, uma mulher com vários filhos é provavelmente o melhor trabalhador do mundo. Educar várias crianças ao mesmo tempo cria um cérebro flexível, rápido, eficiente e maduro emocionalmente. Escrevi há pouco que "Úrsula tem sucesso apesar dos filhos". É uma imprecisão. Esta mulher tem sucesso porque tem filhos."
16 dezembro 2013
A Narrativa do Medo.
Acontecia sempre da mesma maneira. Depois de se dar a conhecer, começava
lentamente a fazer-se parte das suas vidas. O primeiro encontro era normalmente
casual. O trabalho a seguir era uma coisa subtil, laboriosa e paciente, e variava
no tempo ao tempo do compasso dessa dança que é construir pontes entre pessoas.
Depois chegava o dia em que as convidava para um fim-de-semana no monte que
tinha, com a desculpa de ser uma escapadela das correrias e dificuldades. Era
uma herança de família, na Serra Algarvia e chamava-se Monte das Almas. Das 25 que
lá foram nenhuma chegou a voltar.
Primeiro adormecia-as no último
dia com o vinho em que tinha deitado o químico – normalmente tranquilizantes de
uso veterinário. Depois as vítimas acordavam deitadas na cama, num dos quartos
da casa, e à cabeceira da cama, dizia-lhes que estava tudo bem, que
descansassem, que tinham desmaiado. A seguir saía do quarto. Por nunca mais
voltar, as vítimas tentavam levantar-se para sair e descobriam uma porta
trancada, uma janela trancada e, por fim, o silêncio do outro lado quando gritavam
para lhes abrirem a porta. A certa altura descobriam que o vidro da janela era
inquebrável, que a cama estava aparafusada ao chão e que não se conseguia
desmontar, que eram de facto prisioneiras.
Ao terceiro dia entrava num
repente pelo quarto, disparava o taser
e espancava as vítimas até as deixar no limiar da consciência para depois as
atar a uma cadeira e continuar a tortura. O quarto dia era de absoluta
inactividade. Era para lhes dar tempo para curarem as feridas com o estojo de
primeiros-socorros que deixava em cima da mesa-de-cabeceira quando acabava o
tormento. Chamava-lhe o Estojo do Quarto Dia. O nome não tinha nada de
original. A criatividade guardava-a toda para as suas predações. Ao quinto
começava outra vez. Matava normalmente ao fim de um mês.
A Andreia entrou um dia no posto
da GNR mais próximo e disse que se queria entregar. Tinha 35 anos e estava
coberta de sangue. Ligaram para a Judiciária e foi quando a conheci. Nunca
recebi um depoimento tão sombriamente sereno e lúcido. Primeiro senti
apreensão, depois suores frios, depois a sala escureceu um pouco. Cresceu em
mim enquanto ela narrava todos os “petiscos”, lenta mas inexoravelmente, o mais
absoluto pavor. Tinha diante de mim o próprio Medo.
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