07 janeiro 2014

Eusébio e a minha antipatia por Mário Soares.

por Henrique Raposo | Expresso | 07.01.2014
Tenho vários problemas com o soarismo, essa visão (errada) da história , mas acima de tudo tenho uma enorme antipatia por Mário Soares. Não, não é uma questão política. É uma reacção epidérmica. O perfil pessoal de Soares provoca-me um genuíno desconforto. Porquê? Porque não tenho saco para a snobeira que Mário Soares revela em cada gesto e em cada palavra, não tenho paciência para os ares de menino de Lisboa nascido em berço de oiro e em círculos políticos. As declarações que fez no dia da morte de Eusébio provam isso novamente. Repito: novamente. Eusébio é só o caso mais recente. O desprezo por Cavaco, o arrivista de Boliqueime, é evidente há décadas e está cada vez pior. Além do desprezo por seres inferiores na hierarquia social, Soares também aprecia o bom e velho marialvismo: apelidou de "dona de casa" a francesa Nicola Fontaine, essa intrometida que venceu Soares na eleição para a presidência do Parlamento Europeu. E, já agora, não me esqueço da posição abjecta que Soares tomou em relação a Snu Abecassis. Eusébio, Fontaine, Cavaco, Snu: episódios que revelam uma pessoa que não quero à minha mesa ou junto do meu whisky. 
Fala-se muito da tal "direita social", um fenómeno que merece pancadinhas, é verdade.  Mas também existe uma "esquerda social". A snobeira é muito democrática. Mário Soares é tão queque como os Espírito Santos que brincam aos "pobrezinhos". Nas suas campanhas dos anos 70 e 80, Soares conseguiu esconder os tiques de superioridade com a falsa bonacheirice ("o bochechas"), com as palmadinhas, abracinhos e palavrinhas porreiras. Porém, quando lemos relatos e memórias do período, salta logo à vista o absurdo paternalismo de um homem que se julgava no direito natural de mandar em Portugal. Hoje em dia, sem a necessidade de contactar eleitoralmente com as massas, a snobeira de Soares tirou as luvas de pelúcia, está à vista de todos.
Eu respeito o papel de Soares em 75 e, acima de tudo, em 83-85, quando fez de Merkel. Mas não me peçam para gostar da personagem, porque não tenho de gostar, aliás, tenho o dever de não gostar da figura de Soares tendo em conta o seu comportamento de grã-fino. Escrevo isto sem grande prazer, porque os senadores deviam comportar-se como senadores, e não como dondocas. 



Deus não aperta que esmague.


"Os pescadores sabem que o mar é perigoso e a tempestade terrível, mas nunca acharam que estes perigos fossem razão suficiente para ficarem em terra."

Vincent van Gogh

17 dezembro 2013

As grávidas despedidas e a Merkel com sete filhos.

por Henrique Raposo
Expresso | 17.12.13
"Tem nome de general da Wehrmacht, mas Úrsula Von der Leyen é capaz de ser a coisa mais fofa inventada pela Alemanha depois dos Playmobil. Esta política da CDU prepara-se para liderar o ministério da Defesa e, no governo anterior, foi Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais. Nesse cargo, destacou-se na defesa da família e das crianças numa sociedade marcada pelo envelhecimento e por uma taxa de natalidade que parece o Mad Max. Neste ponto, porém, o seu exemplo é mais importante do que qualquer política. É que Úrsula Von der Leyen tem sete filhos. O futuro está aqui, o futuro da Europa tem de passar por Úrsula.  
"Não, não estou a dizer que as europeias devem ter sete filhos. Não, a mulher não pode voltar ao cargo de coelhinha parideira dos sonhos molhados do salazarismo. Mas é preciso encontrar um novo equilíbrio entre pais, mães e sociedade em geral. Não sei se repararam, mas nós, europeus, estamos a morrer. E não me venham com a conversa da crise, porque o inverno demográfico começou muito antes de 2008. Tal como Von der Leyen tem defendido, o problema é mental e cultural. Para começar, importa anular a falácia que coloca o papel de mãe em confronto com o papel de mulher de sucesso. Apesar dos sete filhos, esta Merkel gira é obviamente uma mulher de sucesso. Para compreendermos este ponto, talvez seja interessante colocar a Europa debaixo da outra perspectiva ocidental. Devido a uma deslocação profissional do marido, Úrsula viveu uma temporada nos EUA. Nas entrevistas de emprego, os americanos perguntavam-lhe sempre sobre actividades extra CV, se trabalhava em associações voluntárias, se tinha filhos. Resultado? "Deram-me cargos por ter filhos", diz Úrsula. "Na Europa só me dariam esses cargos se não tivesse filhos".
Ela tem razão. Conheço demasiadas portuguesas que sofreram dois tipos de ameaça: foram intimadas a não engravidar pelo patrão ou mesmo pela chefe de repartição pública, ou foram despedidas depois do nascimento do bebé. Um dia destes, irei obrigar todas estas pessoas a prestar declarações em on, porque esta vergonha tem de acabar. Estes chefes são os grandes coveiros do país. Não, os grandes carrascos de Portugal não são os governos, os sindicatos e corporações. O grande sacaninha da pátria é mesmo aquele chefe, privado ou público, que diz a uma rapariga de 28 anos "olhe, não queremos cá bebés, está bem?". Além de imoral, o sacaninha é burro. Como bem explica Úrsula Von der Leyen, uma mulher com vários filhos é provavelmente o melhor trabalhador do mundo. Educar várias crianças ao mesmo tempo cria um cérebro flexível, rápido, eficiente e maduro emocionalmente. Escrevi há pouco que "Úrsula tem sucesso apesar dos filhos". É uma imprecisão. Esta mulher tem sucesso porque tem filhos."

Em sentido!

16 dezembro 2013

A Narrativa do Medo.

Acontecia sempre da mesma maneira. Depois de se dar a conhecer, começava lentamente a fazer-se parte das suas vidas. O primeiro encontro era normalmente casual. O trabalho a seguir era uma coisa subtil, laboriosa e paciente, e variava no tempo ao tempo do compasso dessa dança que é construir pontes entre pessoas.

Depois chegava o dia em que as convidava para um fim-de-semana no monte que tinha, com a desculpa de ser uma escapadela das correrias e dificuldades. Era uma herança de família, na Serra Algarvia e chamava-se Monte das Almas. Das 25 que lá foram nenhuma chegou a voltar.

Primeiro adormecia-as no último dia com o vinho em que tinha deitado o químico – normalmente tranquilizantes de uso veterinário. Depois as vítimas acordavam deitadas na cama, num dos quartos da casa, e à cabeceira da cama, dizia-lhes que estava tudo bem, que descansassem, que tinham desmaiado. A seguir saía do quarto. Por nunca mais voltar, as vítimas tentavam levantar-se para sair e descobriam uma porta trancada, uma janela trancada e, por fim, o silêncio do outro lado quando gritavam para lhes abrirem a porta. A certa altura descobriam que o vidro da janela era inquebrável, que a cama estava aparafusada ao chão e que não se conseguia desmontar, que eram de facto prisioneiras.
Ao terceiro dia entrava num repente pelo quarto, disparava o taser e espancava as vítimas até as deixar no limiar da consciência para depois as atar a uma cadeira e continuar a tortura. O quarto dia era de absoluta inactividade. Era para lhes dar tempo para curarem as feridas com o estojo de primeiros-socorros que deixava em cima da mesa-de-cabeceira quando acabava o tormento. Chamava-lhe o Estojo do Quarto Dia. O nome não tinha nada de original. A criatividade guardava-a toda para as suas predações. Ao quinto começava outra vez. Matava normalmente ao fim de um mês.

A Andreia entrou um dia no posto da GNR mais próximo e disse que se queria entregar. Tinha 35 anos e estava coberta de sangue. Ligaram para a Judiciária e foi quando a conheci. Nunca recebi um depoimento tão sombriamente sereno e lúcido. Primeiro senti apreensão, depois suores frios, depois a sala escureceu um pouco. Cresceu em mim enquanto ela narrava todos os “petiscos”, lenta mas inexoravelmente, o mais absoluto pavor. Tinha diante de mim o próprio Medo.


11 dezembro 2013

Porquê black-tie aqui e white-tie, ali?

...Manoel de Oliveira responde, pela boca de Luís Miguel Cintra:

"[...] Na maneira de vestir sabe muito bem como é que deve ir a um cocktail, como é que se deve ir a uma cerimónia oficial, tudo isso ele sabe e não é só por uma questão de antigamente ser assim, é uma questão de respeito perante aquilo que significa a construção da sociedade. [...]"

Das sementes da Declaração Universal dos Direitos Humanos.



São Tomás de Aquino.