17 dezembro 2013

As grávidas despedidas e a Merkel com sete filhos.

por Henrique Raposo
Expresso | 17.12.13
"Tem nome de general da Wehrmacht, mas Úrsula Von der Leyen é capaz de ser a coisa mais fofa inventada pela Alemanha depois dos Playmobil. Esta política da CDU prepara-se para liderar o ministério da Defesa e, no governo anterior, foi Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais. Nesse cargo, destacou-se na defesa da família e das crianças numa sociedade marcada pelo envelhecimento e por uma taxa de natalidade que parece o Mad Max. Neste ponto, porém, o seu exemplo é mais importante do que qualquer política. É que Úrsula Von der Leyen tem sete filhos. O futuro está aqui, o futuro da Europa tem de passar por Úrsula.  
"Não, não estou a dizer que as europeias devem ter sete filhos. Não, a mulher não pode voltar ao cargo de coelhinha parideira dos sonhos molhados do salazarismo. Mas é preciso encontrar um novo equilíbrio entre pais, mães e sociedade em geral. Não sei se repararam, mas nós, europeus, estamos a morrer. E não me venham com a conversa da crise, porque o inverno demográfico começou muito antes de 2008. Tal como Von der Leyen tem defendido, o problema é mental e cultural. Para começar, importa anular a falácia que coloca o papel de mãe em confronto com o papel de mulher de sucesso. Apesar dos sete filhos, esta Merkel gira é obviamente uma mulher de sucesso. Para compreendermos este ponto, talvez seja interessante colocar a Europa debaixo da outra perspectiva ocidental. Devido a uma deslocação profissional do marido, Úrsula viveu uma temporada nos EUA. Nas entrevistas de emprego, os americanos perguntavam-lhe sempre sobre actividades extra CV, se trabalhava em associações voluntárias, se tinha filhos. Resultado? "Deram-me cargos por ter filhos", diz Úrsula. "Na Europa só me dariam esses cargos se não tivesse filhos".
Ela tem razão. Conheço demasiadas portuguesas que sofreram dois tipos de ameaça: foram intimadas a não engravidar pelo patrão ou mesmo pela chefe de repartição pública, ou foram despedidas depois do nascimento do bebé. Um dia destes, irei obrigar todas estas pessoas a prestar declarações em on, porque esta vergonha tem de acabar. Estes chefes são os grandes coveiros do país. Não, os grandes carrascos de Portugal não são os governos, os sindicatos e corporações. O grande sacaninha da pátria é mesmo aquele chefe, privado ou público, que diz a uma rapariga de 28 anos "olhe, não queremos cá bebés, está bem?". Além de imoral, o sacaninha é burro. Como bem explica Úrsula Von der Leyen, uma mulher com vários filhos é provavelmente o melhor trabalhador do mundo. Educar várias crianças ao mesmo tempo cria um cérebro flexível, rápido, eficiente e maduro emocionalmente. Escrevi há pouco que "Úrsula tem sucesso apesar dos filhos". É uma imprecisão. Esta mulher tem sucesso porque tem filhos."

Em sentido!

16 dezembro 2013

A Narrativa do Medo.

Acontecia sempre da mesma maneira. Depois de se dar a conhecer, começava lentamente a fazer-se parte das suas vidas. O primeiro encontro era normalmente casual. O trabalho a seguir era uma coisa subtil, laboriosa e paciente, e variava no tempo ao tempo do compasso dessa dança que é construir pontes entre pessoas.

Depois chegava o dia em que as convidava para um fim-de-semana no monte que tinha, com a desculpa de ser uma escapadela das correrias e dificuldades. Era uma herança de família, na Serra Algarvia e chamava-se Monte das Almas. Das 25 que lá foram nenhuma chegou a voltar.

Primeiro adormecia-as no último dia com o vinho em que tinha deitado o químico – normalmente tranquilizantes de uso veterinário. Depois as vítimas acordavam deitadas na cama, num dos quartos da casa, e à cabeceira da cama, dizia-lhes que estava tudo bem, que descansassem, que tinham desmaiado. A seguir saía do quarto. Por nunca mais voltar, as vítimas tentavam levantar-se para sair e descobriam uma porta trancada, uma janela trancada e, por fim, o silêncio do outro lado quando gritavam para lhes abrirem a porta. A certa altura descobriam que o vidro da janela era inquebrável, que a cama estava aparafusada ao chão e que não se conseguia desmontar, que eram de facto prisioneiras.
Ao terceiro dia entrava num repente pelo quarto, disparava o taser e espancava as vítimas até as deixar no limiar da consciência para depois as atar a uma cadeira e continuar a tortura. O quarto dia era de absoluta inactividade. Era para lhes dar tempo para curarem as feridas com o estojo de primeiros-socorros que deixava em cima da mesa-de-cabeceira quando acabava o tormento. Chamava-lhe o Estojo do Quarto Dia. O nome não tinha nada de original. A criatividade guardava-a toda para as suas predações. Ao quinto começava outra vez. Matava normalmente ao fim de um mês.

A Andreia entrou um dia no posto da GNR mais próximo e disse que se queria entregar. Tinha 35 anos e estava coberta de sangue. Ligaram para a Judiciária e foi quando a conheci. Nunca recebi um depoimento tão sombriamente sereno e lúcido. Primeiro senti apreensão, depois suores frios, depois a sala escureceu um pouco. Cresceu em mim enquanto ela narrava todos os “petiscos”, lenta mas inexoravelmente, o mais absoluto pavor. Tinha diante de mim o próprio Medo.


11 dezembro 2013

Porquê black-tie aqui e white-tie, ali?

...Manoel de Oliveira responde, pela boca de Luís Miguel Cintra:

"[...] Na maneira de vestir sabe muito bem como é que deve ir a um cocktail, como é que se deve ir a uma cerimónia oficial, tudo isso ele sabe e não é só por uma questão de antigamente ser assim, é uma questão de respeito perante aquilo que significa a construção da sociedade. [...]"

Das sementes da Declaração Universal dos Direitos Humanos.



São Tomás de Aquino.

28 novembro 2013

E não façais caso desta cultura do provisório.

Papa Francisco
audiência na praça de S.Pedro.

2. A segunda palavra, tomo-a do rito do Matrimónio. Neste sacramento, quem se casa diz: «Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida». Naquele momento, os esposos não sabem o que vai acontecer, não sabem quais são as alegrias e as tristezas que os esperam. Partem, como Abraão; põem-se juntos a caminho. E isto é o matrimónio! Partir e caminhar juntos, de mãos dadas, entregando-se na mão grande do Senhor. De mãos dadas, sempre e por toda a vida. E não façais caso desta cultura do provisório, que nos põe a vida em pedaços.

Com esta confiança na fidelidade de Deus, tudo se enfrenta, sem medo, com responsabilidade. Os esposos cristãos não são ingénuos, conhecem os problemas e os perigos da vida. Mas não têm medo de assumir a própria responsabilidade, diante de Deus e da sociedade. Sem fugir nem isolar-se, sem renunciar à missão de formar uma família e trazer ao mundo filhos. - Mas hoje, Padre, é difícil… - Sem dúvida que é difícil! Por isso, é precisa a graça, a graça que nos dá o sacramento! Os sacramentos não servem para decorar a vida – mas que lindo matrimónio, que linda cerimónia, que linda festa!... Mas aquilo não é o sacramento, aquela não é a graça do sacramento. Aquela é uma decoração! E a graça não é para decorar a vida, é para nos fazer fortes na vida, para nos fazer corajosos, para podermos seguir em frente! Sem nos isolarmos, sempre juntos. Os cristãos casam-se sacramentalmente, porque estão cientes de precisarem do sacramento! Precisam dele para viver unidos entre si e cumprir a missão de pais. «Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença». Assim dizem os esposos no sacramento e, no seu Matrimónio, rezam juntos e com a comunidade, porquê? Porque é costume fazer assim? Não! Fazem-no, porque lhes serve para a longa viagem que devem fazer juntos: uma longa viagem, que não é feita de pedaços, dura a vida inteira! E precisam da ajuda de Jesus, para caminharem juntos com confiança, acolherem-se um ao outro cada dia e perdoarem-se cada dia. E isto é importante! Nas famílias, saber-se perdoar, porque todos nós temos defeitos, todos! Por vezes fazemos coisas que não são boas e fazemos mal aos outros. Tenhamos a coragem de pedir desculpa, quando erramos em família… Algumas semanas atrás, nesta praça, disse que, para levar por diante uma família, é necessário usar três palavras. Três palavras: com licença, obrigado, desculpa. Três palavras-chave! Peçamos licença para não ser invasivos em família. «Posso fazer isto? Gostas que faça isto?» Com a linguagem de quem pede licença. Digamos obrigado, obrigado pelo amor! Mas diz-me: Quantas vezes ao dia dizes obrigado à tua esposa, e tu ao teu marido? Quantos dias passam sem eu dizer esta palavra: obrigado! E a última: desculpa. Todos erramos e às vezes alguém fica ofendido na família e no casal, e algumas vezes – digo eu – voam os pratos, dizem-se palavras duras… Mas ouvi este conselho: Não acabeis o dia sem fazer a paz. A paz faz-se de novo cada dia em família! «Desculpai-me»…, e assim se recomeça de novo. Com licença, obrigado, desculpa! Podemos dizê-lo juntos? (respondem: Sim!). Com licença, obrigado, desculpa! Pratiquemos estas três palavras em família. Perdoar-se cada dia!


Na vida, a família experimenta muitos momentos felizes: o descanso, a refeição juntos, o passeio até ao parque ou pelos campos, a visita aos avós, a visita a uma pessoa doente... Mas, se falta o amor, falta a alegria, falta a festa; ora o amor é sempre Jesus quem no-lo dá: Ele é a fonte inesgotável. Ele, no sacramento, dá-nos a sua Palavra e dá-nos o Pão da vida, para que a nossa alegria seja completa."