28 novembro 2013

E não façais caso desta cultura do provisório.

Papa Francisco
audiência na praça de S.Pedro.

2. A segunda palavra, tomo-a do rito do Matrimónio. Neste sacramento, quem se casa diz: «Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida». Naquele momento, os esposos não sabem o que vai acontecer, não sabem quais são as alegrias e as tristezas que os esperam. Partem, como Abraão; põem-se juntos a caminho. E isto é o matrimónio! Partir e caminhar juntos, de mãos dadas, entregando-se na mão grande do Senhor. De mãos dadas, sempre e por toda a vida. E não façais caso desta cultura do provisório, que nos põe a vida em pedaços.

Com esta confiança na fidelidade de Deus, tudo se enfrenta, sem medo, com responsabilidade. Os esposos cristãos não são ingénuos, conhecem os problemas e os perigos da vida. Mas não têm medo de assumir a própria responsabilidade, diante de Deus e da sociedade. Sem fugir nem isolar-se, sem renunciar à missão de formar uma família e trazer ao mundo filhos. - Mas hoje, Padre, é difícil… - Sem dúvida que é difícil! Por isso, é precisa a graça, a graça que nos dá o sacramento! Os sacramentos não servem para decorar a vida – mas que lindo matrimónio, que linda cerimónia, que linda festa!... Mas aquilo não é o sacramento, aquela não é a graça do sacramento. Aquela é uma decoração! E a graça não é para decorar a vida, é para nos fazer fortes na vida, para nos fazer corajosos, para podermos seguir em frente! Sem nos isolarmos, sempre juntos. Os cristãos casam-se sacramentalmente, porque estão cientes de precisarem do sacramento! Precisam dele para viver unidos entre si e cumprir a missão de pais. «Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença». Assim dizem os esposos no sacramento e, no seu Matrimónio, rezam juntos e com a comunidade, porquê? Porque é costume fazer assim? Não! Fazem-no, porque lhes serve para a longa viagem que devem fazer juntos: uma longa viagem, que não é feita de pedaços, dura a vida inteira! E precisam da ajuda de Jesus, para caminharem juntos com confiança, acolherem-se um ao outro cada dia e perdoarem-se cada dia. E isto é importante! Nas famílias, saber-se perdoar, porque todos nós temos defeitos, todos! Por vezes fazemos coisas que não são boas e fazemos mal aos outros. Tenhamos a coragem de pedir desculpa, quando erramos em família… Algumas semanas atrás, nesta praça, disse que, para levar por diante uma família, é necessário usar três palavras. Três palavras: com licença, obrigado, desculpa. Três palavras-chave! Peçamos licença para não ser invasivos em família. «Posso fazer isto? Gostas que faça isto?» Com a linguagem de quem pede licença. Digamos obrigado, obrigado pelo amor! Mas diz-me: Quantas vezes ao dia dizes obrigado à tua esposa, e tu ao teu marido? Quantos dias passam sem eu dizer esta palavra: obrigado! E a última: desculpa. Todos erramos e às vezes alguém fica ofendido na família e no casal, e algumas vezes – digo eu – voam os pratos, dizem-se palavras duras… Mas ouvi este conselho: Não acabeis o dia sem fazer a paz. A paz faz-se de novo cada dia em família! «Desculpai-me»…, e assim se recomeça de novo. Com licença, obrigado, desculpa! Podemos dizê-lo juntos? (respondem: Sim!). Com licença, obrigado, desculpa! Pratiquemos estas três palavras em família. Perdoar-se cada dia!


Na vida, a família experimenta muitos momentos felizes: o descanso, a refeição juntos, o passeio até ao parque ou pelos campos, a visita aos avós, a visita a uma pessoa doente... Mas, se falta o amor, falta a alegria, falta a festa; ora o amor é sempre Jesus quem no-lo dá: Ele é a fonte inesgotável. Ele, no sacramento, dá-nos a sua Palavra e dá-nos o Pão da vida, para que a nossa alegria seja completa."

22 outubro 2013

Encontro.

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.»
(Deus Caritas Est, 1)

«A nós, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperança que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida.»
(Spe Salvi, 3)

«A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro.»
(Lumen Fidei, 1)


Durão de objectiva em punho.


Só um tipo com pinta de Little Italy é que podia ser o fotógrafo de guerra Robert Capa.
Faria hoje cem anos e era húngaro.


19x9.

por Henrique Raposo | Expresso | 21.10.13
"O Futuro e os seus Inimigos é um ensaio relevante para os nossos dias de crise. Daniel Innerarity é particularmente feliz na forma como encontra causas culturais e morais para os efeitos económicos. Ou seja, a crise económica do Ocidente é o resultado de escolhas culturais e morais das nossas sociedades. Uma dessas causas é o homem pós-moderno, o sujeito que vive na "cultura da urgência", o eu construído na "simultaneidade" e na "imediatez". Segundo este pensador espanhol, o indivíduo do século XXI está dominado "pelo desejo de satisfação imediata e mostra-se intolerante perante a frustração; exige tudo já, salta de um desejo para outro com impaciência crónica (...) é incapaz de se inserir no mais insignificante projecto ou qualquer continuidade e exige do presente o que deveria ser esperado do futuro". Innerarity não podia estar mais perto da verdade.
Tal como já tentei explicar,  a pós-modernidade teve a sua versão económica no indivíduo viciado no crédito - e convém recordar que o vício do crédito, pessoal e estatal, é a causa mais funda desta crise. As nossas sociedades passaram a encarar a poupança como uma tirania inaceitável, porque poupar implica uma distância temporal entre o acto de querer e o acto de comprar. A sociedade do eu pós-moderno com um cartão de crédito no coldre aboliu essa distância. Há uns décadas valentes, o meu pai poupou alguns meses para comprar uma TV a cores. Ao longo das últimas décadas, essa espera conservadora tornou-se inconcebível. A malta compra no momento em que deseja comprar. Este vício no crédito e a consequente ausência de poupança revelam um "presente vicinal, autárquico, auto-referencial e inquieto", um presente que não tolera lições do passado e que despreza o futuro e as gerações vindouras.
Todavia, a análise de Innerarity é frágil num ponto: as causas desta moralidade volátil. O Futuro e os seus Inimigos explica a volatilidade das nossas sociedades apenas pelas parangonas tecnológicas, as mudanças de paradigma comunicacional, etc. Ora, isso é apenas a capa tecnológica. O indivíduo pós-moderno não nasceu na internet (um meio quantitativo), mas sim na educação qualitativa. De forma consciente, as escolas e faculdades ocidentais criaram uma geração no ódio ao passado (contra as narrativas da direita) e no desprezo pelo futuro (contra as narrativas da esquerda clássica). Pior: a memória foi abolida na escola, porque impede a livre circulação da sacrossanta imaginação do petiz. A própria tabuada e o cálculo matemático foram diabolizados e os meninos não têm de aprender matemática, só têm de aprender matematicamente. Ou seja, até a realidade física mais imutável é alterada para não ferir o ego ultraprotegido do petiz. Entretanto, as escolas indianas obrigam os alunos a saber a tabuada até ao 19. 19x9, sff.  A "cultura da urgência" e o consequente sentimentalismo nasceram aqui, nesta coutada onde o eu vive num mundo onde não existem as leis da gravidade da economia, da história, da vidinha. 


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/saber-a-tabuada-ate-ao-19x9=f836789#ixzz2iRhvUJbH

15 outubro 2013

Faz hoje um ano que não foi.

Esteve para ir. Mais ou menos uma semana no fio da navalha.
Fez por ficar, ou, fizeram por ele, ou, um travo de cada coisa. Não era, passe a trivialidade da expressão para descrever a coisa menos trivial deste mundo, a hora dele. Faz hoje um ano que ficou por cá e nós com ele e todos juntos virados ao futuro de uma família que sabe ser essa união a sua maior riqueza. Continuamos. De maneira diferente, mas continuamos. Faz hoje um ano que nos foi dado continuar.

Hoje é dia de Graças, hoje é dia de dar Graças.