28 novembro 2012

História da Arte (ou nós e as moscas: representações).


She's back!


"Estar à altura do mundo. Actualidade política, moda, culinária, artes e letras.
Poucas coisas podem ser completamente compreendidas, mas quase todas podem ser bem comentadas."

uma coisa a dizer.

Protecção de quem?


por Vasco Graça Moura
DN, 28 Novembro, 2012

Toda a gente viu, nos serviços noticiosos de televisão, a horda ululante e desvairada que ao fim da tarde de 14 de Novembro atacou as forças da polícia em frente a São Bento.
A arruaça promovida por essa associação de malfeitores ao longo de mais de uma hora, insultando e agredindo as forças da ordem, praticando danos avultados em bens públicos, causando um tumulto inaceitável e agindo com violência incendiária e criminosa só impunha um tipo de actuação por parte da polícia: varrer aquela canalha selvática desde a primeira agressão e sem quaisquer contemplações.
A PSP optou por esperar pacientemente, talvez tempo demais, sujeitando-se a toda a espécie de vexames até lhe ser mandado que impusesse o respeito da ordem pública. E então agiu e agiu bem, embora pudesse ter agido muito melhor se tivesse ali por perto um carro da água para limpar à mangueirada, depressa e eficazmente, a escadaria do Parlamento e adjacências.
Em qualquer país civilizado, a reacção policial teria sido bem mais dura e expeditiva.
Tratou-se de uma perturbação intencional e muito violenta da ordem pública, da integridade e da segurança de pessoas e bens, levada a cabo no espaço público e à vista de toda a gente por um grupo de facínoras sem escrúpulos.
Essa perturbação foi filmada por operadores de televisão, sem nenhum condicionamento que não fosse a própria natureza tumultuária do que estava a acontecer. Isto é, não há aqui nenhuma espécie de segredo profissional nem parece que a cobertura pela imagem de um facto, criminoso ou não, ocorrido no espaço público, implique a protecção de qualquer espécie de sigilo profissional dos jornalistas intervenientes.
No caso, eles não precisaram de se documentar em fontes mais ou menos discretas. Os factos de agressão e distúrbio a que me refiro não são fontes a cuja protecção sigilosa os jornalistas tenham direito.
As fontes são as fontes. Os factos são os factos. O serviço público precisamente está em documentá-los e, tratando-se de crimes, em ser dada a necessária colaboração por quem dispõe desses documentos às autoridades públicas competentes para identificação dos agressores.
Nem se vê que colha a distinção entre imagens editadas ou não editadas. Se não fosse assim, e quando, por hipótese, um determinado jornalista pretendesse favorecer um bando de criminosos, bastar-lhe-ia editar convenientemente as imagens, suprimindo delas tudo o que permitisse identificá-los e pretextar o sigilo profissional para se escusar a mostrá-las.
É pelo menos bizarro o entendimento da Comissão Nacional de Protecção de Dados, nos casos a que se refere o DN de 24 de Novembro (incidentes de rua a 21 e 29 de Setembro, o primeiro, aquando da reunião do Conselho de Estado, e o segundo, na manifestação da CGTP), refugiando-se em qualificações e objecções ociosas e especiosas que só podem redundar na protecção dos infractores e do crime.
Não é para isso, estou em crer, que a referida comissão existe.
Compreende-se que Miguel Macedo pretenda garantir o acesso da PSP a imagens não editadas, sem margem para quaisquer dúvidas jurídicas. Os formalismos, malabarismos e manobrismos proporcionados por um Direito inconsistente que foi sendo constituído em nome do politicamente correcto e de todas as escapatórias possíveis à assunção de quaisquer responsabilidades sérias levam o ministro da Administração Interna a sentir como necessária a emissão de parecer por parte do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República.
É todavia um excesso de escrúpulo da sua parte. O DN também noticia, a par da opinião que vai no sentido dessa legitimidade, uma outra, segundo a qual "tal procedimento poderá configurar violação do sigilo profissional dos jornalistas".
Naquele "poderá" é que está o centro de gravidade da argumentação capciosa, muito especialmente em se tratando de acesso a imagens colhidas no espaço público, e sem que houvesse ou haja qualquer fonte a proteger... Vive-se um tempo de crise da autoridade e de insegurança crescente.
Há muitos aspectos em que a Justiça em Portugal tem sido uma vergonha.
Bom seria que, pelo menos nalguns, como neste caso, deixasse de o ser rapidamente.

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

das coisas Catalãs.

no Declínio e Queda.


"A leitura mais frequente dos resultados das eleições na Catalunha, entre nós, é a de que ganhou a frente soberanista ou independentista. Somando os votos da CiU, que ganhou (embora passando de 62 para 50 deputados), da ERC, que ficou em segundo lugar (embora passando de 10 para 21 deputados), e de outros pequenos partidos pró-independência, temos cerca de dois terços dos 135 deputados catalães a favor de uma separação de Espanha.
É verdade, mas há um pormenor relevante de que ninguém fala. Enquanto o Partido Socialista Catalão, tradicionalmente autonomista, desceu de 28 para 20 deputados, o PP ganhou um deputado e, mais do que isso, reforçou muito a sua votação, passando de 387 mil votos em 2010 para 471 mil. Para efeitos de comparação, a ERC teve agora 496 mil votos (219 mil em 2010) e a CiU 1 milhão e 100 mil (1 milhão e 200 mil em 2010). Ou seja, o voto conservador fugiu da CiU para o PP, enquanto a ERC cresceu à custa dos socialistas.
O que representa um aumento da clivagem entre os que querem a independência e os que querem manter as coisas como estão. Ora, um dos factores de sucesso do nacionalismo catalão era o seu discurso moderado e gradualista, garantia de apoio do centro político. Apesar do forte movimento operário e de alguns episódios pouco edificantes na Guerra Civil, repartidos entre anarquistas e vermelhos – a vandalização da catedral da Sagrada Família, por exemplo-, a autonomia catalã foi sempre uma exigência burguesa, não violenta e cosmopolita. Ao contrário do activismo basco, paradoxalmente mais ligado aos extremos (de direita no século XIX, com Sabino Aranda e outros nostálgicos de um Euskadi medieval não contaminado por mouros e castelhanos; de esquerda no século XX, com os republicanos, os católicos progressistas e os marxistas da ETA). Ter uma literatura escrita com quase mil anos também ajudava, além de velhas relações com o Sul de França e as ilhas mediterrânicas (outra diferença em relação aos Bascos, com uma identidade regional mais distinta, mas também mais isolada, ou mais distinta porque mais isolada).
Talvez a clivagem seja apenas conjuntural. Talvez o fenómeno ERC seja apenas como o Syriza na Grécia: um produto da crise. Mas, se não for, a sociedade catalã sai mais dividida da aventura, com um bloco de meio milhão de eleitores a votar no PP, em princípio espanholista, outro meio milhão a votar na esquerda radical, em princípio independentista, e o milhão da CiU no meio, em equilíbrio difícil. A ex-Jugoslávia não está assim tão longe."

Escrita Pop.

por Eduardo Martins.
Escreve o i que Margarida Debalde Pinto "inventou a escrita pop em Portugal". É verdade. E isto é tudo o que é preciso dizer sobre a essência, ou falta dela, de Margarida Debalde Pinto.

15 novembro 2012

Golo do Henrique Monteiro.

O sôr desculpe, por acaso estava a apedrejar?
Expresso
15/11/2012

Há coisas do arco-da-velha. Uma delas é acreditar que um polícia, depois de hora e meia a levar pedradas, tem discernimento para, durante uma carga, saber quem prevaricou e não prevaricou.

Vamos a factos. Vários energúmenos (que nada tinham a ver com o espírito da manifestação, e já depois de esta ter acabado) começaram a apedrejar polícias em frente ao Parlamento. Vários manifestantes (entre os quais Daniel Oliveira, segundo o próprio relata na sua crónica) pediram insistentemente para não o fazerem, no que não tiveram sucesso e abandonaram o local. Um dirigente do PCP, que se encontrava a dar uma entrevista a uma televisão, condenou o sucedido e disse que ia retirar-se imediatamente daquele sítio, o que fez. Mais de uma hora depois, as pedradas continuavam. Alguns populares (ligados, presumo, à manifestação da CGTP) colocaram-se em frente da polícia tentando demover os delinquentes. De nada serviu, a chuva de pedras continuou. A polícia fez um aviso: retirem-se da praça que vamos carregar. Dois minutos depois repetiu o aviso. Cinco minutos depois, carregou. Quem ainda estava na praça sabia o que ia acontecer.

Bateram em pessoas que jamais tinham atirado uma pedra? É possível. O que não é possível é ser de outra maneira; o que não é possível é durante uma carga, um polícia que esteve sob uma tensão enorme durante horas, indagar e interrogar-se sobre a justeza da sua ação. Isso é lírico.

A polícia cumpriu todas as normas. Mas porque não foi ao meio da manifestação buscar os apedrejadores? Bem, porque era arriscado. E porque as cargas têm de ter aviso, pelo menos nos países democráticos e civilizados.

E, já agora, uma nota final para os ignorantes que comparam estas cargas às que existiam antes do 25 de Abril. Estive em várias e era assim. Um estudante (lembro-me de José Luís Saldanha Sanches, por exemplo) saltava para a escadaria da Faculdade de Direito e discursava contra a guerra colonial. De repente, de trás da reitoria, saía a polícia de choque do célebre capitão Maltez. Às vezes traziam cavalos, mas a maioria das vezes cães. Batiam em quem podiam, sem que nada fosse arremessado contra eles. Sem avisos, sem jornalistas que pudessem presenciar. Acham que há comparação? Não brinquem com coisas sérias!
White Riots