09 novembro 2012

do Aborto.

A discussão sobre o aborto só é honesta quando se tenta concluir sobre: 
- é uma vida?
- se sim, tem os mesmos direitos que eu, que sou adulto na plena posse das minhas capacidades? 

O primeiro ponto é o mais tricky. É insustentável dizer que só é vida a partir de algum ponto depois da fecundação. Tudo o que acontece depois, são estágios de desenvolvimento. Aquele ovo fecundado nunca vai dar um elefante, é ovo de ser humano. A partir daqui, é jogo de cintura para inventar janelas de oportunidade para um "aborto justo".
No segundo ponto, trata-se de assumir uma escolha sobre qual vai ser o valor que fala mais alto. O da vida do bébé ou o da vida absoluta liberdade de escolha da mãe. A discussão a sério, é assim de crua.
Uma pessoa honesta e que defenda o aborto, diz: são sempre vidas humanas, mas sobre algumas eu decido se vivem ou não. Qualquer deriva suavizante é igual a dizer que um escravo não é um ser humano e por isso eu posso escravizá-lo.

Isabel Jonet, as palavras e os atos. [o Expresso segue o acordo ortográfico].

por Henrique Monteiro

"A presidente do Banco Alimentar deu umas opiniões, anteontem à noite, na SIC Notícias. Ontem, durante todo o dia, foi simbolicamente queimada na fogueira das redes sociais; hoje segue o auto-de-fé em alguns jornais. Salvo algumas boas almas (de esquerda e de direita) que a tentaram compreender, o veredicto foi unânime: ela disse o que não se pode dizer.

Na sociedade atual, como no tempo da Inquisição, todos temos de andar com um credo na boca. Tal como o credo católico, também este se baseia em crenças e não em factos!

E o que disse Isabel Jonet? Enfim, disse o que pensa e isso hoje pode ser quase um crime.

Tanto bastou para os arautos do politicamente correto se porem em ação. Uns escreveram que não dão nem mais um quilo de arroz enquanto ela for presidente do Banco Alimentar; outros exigiram a sua demissão (da instituição privada que ela própria fundou); uma série deles acusou-a de insultar os pobres (embora os próprios não sejam pobres sabem quando os pobres se sentem insultados) e um movimento ameaça-a de não sei o quê.

A obra de Isabel Jonet fala por si. Mas há uma certa categoria de gente para quem o importante são palavras. Para quem os pobres não são pessoas reais, com qualidades e defeitos, mas categorias político-filosóficas abstratas. Claro que nenhum daqueles que critica violentamente Isabel Jonet terá feito um centésimo do que ela fez no combate à pobreza e à fome em concreto. Mas a pessoas assim não interessam obras nem atos concretos. Apenas ideias e palavras.

E vivem iludidos com palavras a vida toda."

da polémica Jonet.

Notícia de última hora! É oficial, o país enloqueceu. Um pouco por todo o lado, dos jornais aos blogues, rebentam pequenos AVC's retóricos em suporte digital. Devem ser restos de descargas da adrenalina de terem seguido as eleições norte-americanas. Com sorte até se esquecem que vem cá a Srª. Merkel, a quem devíamos realmente prestar atenção. 

08 novembro 2012

Golo na Voz do Deserto.

Golo inteligente na construção e bem escrito, abre a porta para algumas subtilezas da política norte-americana e as opções nada subtis que se tomam, com mais ou menos consciência, quando se escolhe um ou outro candidato.
Estamos em campos opostos. A voz que fala no deserto diz que eu acredito no mesmo Deus que ele mas, acha que eu O atravanquei num arrumo algures no Vaticano para poder ir brincar às hierarquias e às indulgências e perfumar tudo com incenso. Eu digo que a voz acredita no mesmo Deus que eu mas, acho que chega de birras e protestos e que está na hora de voltar a casa. Isto é uma caricatura. Os dois achamos que a Igreja Mórmon é herética e "que acredita que há a divindade que é uma versão contrabandeada do cristianismo". Isto não é uma caricatura.
Mais do que isto, que é mais ou menos divertido, é o ponto fulcral onde me junto ao Tiago Guillul - não reconhecer a natureza maligna do aborto levanta questões sérias sobre o discernimento ético de um político. A resolução que daí tiro e que já tinha para mim, também, antes da eleição é que isso é suficiente para saber que não poderia nunca votar em Obama e que não diz absolutamente nada sobre se votaria em Romney. Provavelmente não votaria em nenhum deles.

Um cheirinho:
"3. Deixa-me perplexo a leveza de alguns amigos que conheço junto de mim contra o aborto elogiarem Obama sem sequer uma palavra quanto ao assunto. Correndo o risco de poder ser injusto, creio que é em casos destes que se distingue alguém que realmente olha para o aborto como uma monstruosidade. Simplificando muito a minha tese: se és capaz de votar em Obama, believe me, não és assim tão contra o aborto."

PS: Despediram o António Marujo do Público?! Mais um capítulo da morte anunciada de uma organização que antigamente era profissional e séria.

Fausto e a Sobremesa.