29 agosto 2012

A promiscuidade tira a vontade.


O que é a experiência? Nada. É o número dos donos que se teve. Cada amante é uma coronhada. São mais mil no conta-quilómetros. A experiência é uma coisa que amarga e atrapalha. Não é um motivo de orgulho. É uma coisa que se desculpa. A experiência é um erro repetido e re-repetido até à exaustão. Se é difícil amar um enganador, mais difícil ainda é amar um enganado. 
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia aplicar aos homens. O pudor valoriza. 0 sexo é uma coisa trivial. É por isso que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade tira a vontade.
Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a «liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre», que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é preciso conquistar é a castidade. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

mumford teasing.




enquanto o comboio passa,
pare, escute e olhe,
sinta, veja e oiça,
ganhe tempo.

28 agosto 2012


irresistível aura pós-guerra. mundo analógico de passaportes e carimbos em que redes só haviam as de pesca. classe. cavalheiros. combates intrépidos pela justiça. bons e maus porque os bons eram bons e os maus eram maus. tempos ingénuos de quem sobreviveu ao armagedão e triunfou com a avalanche de ocidente. tudo isto num punhado de tiras de BD. assim também eu! abater a marca amarela assim, era fácil...
apanhado no designwise.

margarida debalde pinto.

não há paciência
para a prepotência
de vossa eminência

tenha clemência
ou então por decência
um pouco de ausência

assim penitência
e cura em potência
da sua demência

vossa excelência
esbanja a essência
na mole indulgência

josé dos risos de espantos.

escreva quem sabe, quem brota
quem à derrota diz "musa!"
por ser atroz e escória
da memória esquecido

esse que renasce das cinzas
amanhecido em rasgo novo
fita o outro monte e lá defronte
se dá ao piso

varram da frente o escreve-linhas de corda
que enche folhas que depois ata e vende
e livro lhe chama e por isso mente

realejo de papel e escrita pope.
que vai às revistas dizer em colunas
coisas desunas de história em cordel

pobre bicho que subcontrata o lixo
por já nem lixo saber escrever
o escreve-linhas de corda de livros
de folhas que enche e que ata e que vende
e que mente e diz que é livre
e a gente se livre de não ler o livro

27 agosto 2012

Nem mais!

Mais um golo do Lourenço no Complexidade e Contradição.

"Uma palavra para António José Seguro. A vida democrática só existe com alternativas de poder, e é bom ver que ele está lá. Mantendo-nos a todos debaixo da sua asa protectora. Não se preocupem, parece dizer, o Tó Zé está aqui, a ver tudo, a tomar conta de tudo. Todos os dias o Tó Zé sai da cama só para nos defender do governo malvado. Liga a televisão, ouve a proposta do dia, e à tarde está a propôr o seu contrário. O Tó Zé está para o governo como a anti-matéria está para a matéria: se o governo é o electrão, todo cheio de cargas negativas e maus olhados, o Tó Zé é o positrão, todo animado e positivo. Com ele, o futuro brilhará, e brilhará de todas as maneiras possíveis, até ao infinito. Com subsídios, com televisão, com circo às quintas-feiras. Palavra de positrão."