01 junho 2012

O maior, por ter medo de ser pequeno.

@essejota.net

Sinto um espião no jardim e sei que ele te vai dizer que de herói tenho pouco. Por isso o mensageiro agora está junto às margaridas para eu continuar a ser o melhor aos teus olhos.

  

Não me posso mostrar inteiro porque o todo é imperfeito e nesse pequeno mora o frágil e o risco, e perder-te eu não arrisco. Dá pelo nome de Tallest Man on Earth e fala-nos disto na história de um jardineiro que bem podia ser eu, ou, talvez tu.

Estranha tensão, esta, entre o dar-se e o medo de se perder. É esquisito e tão corrente o medo de deixar entrar na nossa inteireza o desalinho que não controlamos. Que medo é este de cair dos olhos do outro?

Faz lembrar a história do gigante que morava num lindo jardim, fechado por muros altos e intransponíveis, não fosse alguém estragar o retrato. Um dia vieram as crianças - são sempre as crianças – que descobriram uma racha no muro, entraram de rompante e deram vida às flores e às árvores e às coisas.

O gigante não gostou e ralhou muito com aqueles meninos. A vida traz reboliço e confusão e o gigante não podia arriscar deixar de o ser. Claro que no fim os pequenos do grande fizeram maior porque de ser gigante, o gigante desistiu. Os muros foram derrubados, os meninos brincaram no jardim e todos, perfeitas obras por terminar, viveram felizes para sempre. No dom de nós está o resgate e no desalinho a plenitude.

Mas comigo e se calhar contigo, não é assim. Do frágil incompleto fujo completamente. Misteriosa coisa de dentro esta, de que fugimos cá por fora, entretanto.

Sou gigante e jardineiro, e que jardim este que tenho feito. O maior, por ter medo de ser o pequeno.

Sou homem, planto flores e vou-te mostrando o meu jardim. Moro nos teus olhos. Estou a caminho.

E tu?

Catequese e Ortodoxia.

por Simão Lucas Pires

"Somos rápidos a condenar o excesso de zelo, o farisaísmo de quem só vê regras à frente. Mas não deveríamos ser igualmente resistentes à atitude contrária? São Paulo, na Carta aos Romanos, diz com toda a clareza: a fé em Jesus confirma a Lei. E, no entanto, à vigilância a que a Lei e a Doutrina da Igreja nos chamam preferimos muitas vezes os ideais de uma religião vaga, de cujas premissas acerca de um Deus bom e de uma promessa de felicidade tiramos as conclusões que nos dá na gana tirar. Pode ser uma tentação apetecível adaptar o cristianismo à minha visão pessoal do mundo, mas é um erro pensar que desse modo sou mais livre e estou mais perto da verdade.

João Paulo II, na introdução à encíclica Veritatis Splendor, fala na importância desta relação entre liberdade e verdade. Para nós, católicos, a liberdade não é o bar aberto das paixões. É a capacidade sagrada de aderir à verdade e ao bem. O problema é que eu sou pequeno demais, fraco demais, cego demais para perceber sozinho onde é que a verdade e o bem andam. O encontro com Jesus, através da confiança, da oração, do conhecimento do Evangelho e do sacramento da Eucaristia, deve ser o motor do que faço; mas, para que esse desejo de configurar a minha vontade com a Dele seja cada vez mais perfeito, há coisas concretas que preciso ver esclarecidas. A doutrina da Igreja e a voz do seu Magistério têm a esse respeito um papel fundamental. Como é que, com a minha namorada, eu sou o que Jesus quer? O que é que se passa realmente na Missa, naquela série de palavras e gestos a que assisto e a que presto assentimento? O que é a salvação eterna, o que é o inferno? Acreditamos que a verdadeira resposta a estas e outras perguntas é a que nos dá o Magistério da Igreja, porque acreditamos numa coisa extraordinária: acreditamos que os bispos são os sucessores dos Apóstolos. É frequente a obediência ser vista como inimiga da liberdade; a obediência à Igreja, porém, no que diz respeito às exigências morais e ao significado dos ritos, é a forma mais plena de liberdade - porque a autoridade à qual obedecemos, nas figura dos bispos e do Papa, é uma autoridade derivada de Cristo e da Sua presença na Igreja. Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

A aceitação da Doutrina da Igreja e o conhecimento aprofundado do que nela está em causa é o seguimento natural da fé em Jesus. É importante, por isso, regressar à catequese. Recusar a tendência de transformar a prática cristã num debate de estilos, em que uns são mais "conservadores" e outros mais "liberais", e aprender, de facto, o significado e o peso dos conteúdos ligados à fé. É importante conhecer o que a Igreja diz sobre a liturgia, sobre a oração, sobre os sacramentos, sobre a moral. Não por obsessão moralista ou nerdismo religioso. Por amor a Deus, que por amor deu ao seu povo a Igreja como guia e inspirou a palavra dela para que se tornasse uma arma da justiça aqui na terra. Sem catequese, afastados da ortodoxia, corremos o risco de cair na armadilha do humanismo, na armadilha da naturalização da religião; na armadilha de pensar que sou eu a medida das coisas, que tudo vale em função da minha opinião e da experiência psicológica que faço disso. A humildade a que somos chamados tem também que ver com isto. Pois Cristo é a resposta aos problemas do homem, mas o cristianismo não é um programa de auto-ajuda: é o nosso caminho de regresso a casa. E ninguém conhece melhor esse caminho do que aqueles em quem Deus confiou para serem nossos guias. Há coisas muito simples que posso fazer para saber mais sobre a minha própria fé. Os sacerdotes, em primeiro lugar, estão aí para satisfazer a nossa sede de verdade. E o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, por exemplo, é um livro simples que não custa mais do que cinco euros e cabe no bolso das calças de qualquer pessoa.

Na Missa, chegada a altura do Credo, a assembleia dos fiéis protagoniza em conjunto um momento incrivelmente belo e poderoso - um momento em que, pela palavra, os contornos da própria vida são alargados. Uma das coisas que então proclamamos é a crença na Igreja, na sua santidade e no seu carácter apostólico. Que eu saiba pôr nessa verdade de fé o meu coração inteiro."

15 maio 2012

telegrama filosófico nº3

Pergunta: 
Porque é que a lógica utilitarista não funciona?
Resposta: 
1. Felicidade = Prazer. O Mill ainda bracejou a tentar dizer que havia prazeres superiores e inferiores, mas meteu-se numa embrulhada. Por isso, a ser uma moral, é um bocado animalesca;
2. Em nenhum ponto considera como "bem" ou sequer "valor" coisas consensuais como dignidade do ser humano, por exemplo: sou médico, tenho um doente velhote com maior probablidade de morrer, mas com órgãos bons; tenho outro jovem a precisar de orgãos - tenho por isso, o dever de matar o velhote, tirar-lhe os órgãos e dar ao novo, porque da vida dele virá certamente maior felicidade para mais pessoas (mais exemplos fáceis, como aborto, e até infanticídio, peter singer style);
3. Supõe que é possível prever as consequências das nossas acções - porque se baseia num cálculo: o único dever moral que temos é calcular a quantidade de prazer/felicidade/utilidade (tudo igual) que as nossas acções produzem e para quantas pessoas; o objectivo é maximizar, por isso entre uma que traz menos e outra que traz mais, a boa é a última. o problema é que não temos nunca maneira de prever assim as consequências;

telegrama filosófico nº2


p'la telegrafista que tem uma coisa a dizer.

Adam Smith queimaria esta malta.

Henrique Raposo
no Expresso de 27 de Abril

"Os magos matemáticos do mundo financeiro não são os únicos culpados pela crise de 2008, mas estão, sem dúvida, no pódio da culpa. Estes geeks dos modelos matemáticos criaram um mar de dinheiro irreal, sem relação com a actividade económica. Este planeta da abstracção financeira, habitado por algoritmos e derivados, chegou a ser 40% mais rico do que o PIB real do mundo inteiro. Em 2006, o PIB de todos os países do mundo era de 48,6 triliões de dólares, mas o valor de acções e derivados estava nos 67,9 triliões (contas de Niall Ferguson). Os famosos "activos tóxicos" escondiam-se - e escondem-se - nestes 40% de malabarismo financeiro. De forma surreal, esta feitiçaria matemática criou uma torre de marfim que está tão distante de Adam Smith como de Marx. Isto já não é liberalismo ou "capitalismo". Isto é geekismo. 

Antes de 2008, os tais modelos matemáticos diziam que uma crise de liquidez era virtualmente impossível. Resultado? A relação entre dinheiro-em-caixa e activos-financeiros-garantidos-por-dívida podia ser de 1 para 19. Foi o que aconteceu à Long-Term, empresa de dois prémios Nobel de Economia, Scholes e Merton. Esta empresa tinha 6,7 mil milhões em depósito, mas possuía 126 mil milhões em bens gerados na ficção financeira. Porquê? Porque os computadores diziam que uma crise de liquidez era uma impossibilidade até ao fim do universo. Problema? Estas fórmulas funcionavam com dados dos últimos cinco anos. Portanto, aquela absoluta certeza científica (repito: a crise do subprime era impossível até ao fim do universo) assentava num cálculo que apenas contemplava dados dos últimos cinco anos. Como é que um cientista pode ser tão irracional? Depois do caos de 2008, um dos geniozinhos da Long-Term disse o seguinte: "se eu tivesse vivido a crise de 1929, estaria em melhores condições para perceber os acontecimentos". Os geeks sabem muito de matemática, mas nada de história. E o habitat da economia é a história, e não a matemática.

Após 2008, seria de supor que esta arrogância científica desaparecesse do centro da finança. Mas isso não aconteceu. Aliás, o cenário ficou ainda mais lunático. De 2008 para cá, os algoritmos aumentaram a sua presença. O que é um algoritmo? É uma fórmula matemática do tamanho de um camião TIR, uma sucessão de instruções matemáticas que cria um mecanismo-que-pensa-por-si, uma máquina que toma decisões sozinha. O sistema de algoritmos (High Frequency Trading - HFT) controlava menos de 25% das transacções dos EUA em 2008; em 2012, já controla 70% das transacções americanas e 40% das europeias. Até parece piada. O factor que nos conduziu ao abismo de 2008 (modelos matemáticos) aumentou a sua dimensão e complexidade. Estamos a curar o doente com mais uma dose da doença. Chegou-se ao ponto em que os fluxos financeiros já não estão em mãos humanas. A matemática em forma de máquina (algoritmo) expulsou os corretores, aqueles humanóides que gesticulavam nas bolsas.

Tal como Jorge Nascimento Rodrigues escreveu nestas páginas, esta situação parece um filme de ficção científica. Eu acrescentaria que tudo isto soa a distopia científica. Quando a venda e a compra de milhões de obrigações é feita num micro-segundo e sem intervenção humana, é sinal de que já estamos num Admirável Mundo Novo, ou seja, já estamos para lá da moralidade humana, a beijar um mundo pós-humano liderado por uma mentalidade técnica e científica que é intrinsecamente amoral. Aliás, esta amoralidade científica ficou evidente numa reportagem do Financial Times (bastante crítica em relação ao domínio do algoritmo no sistema financeiro). Na Terra do Nunca do geek financeiro, a Financial Computing Centre, em Londres, o repórter do FT encontrou um grupo de matemáticos que vive num mundo virtual de fórmulas e linguagem de computador. Muitos destes matemáticos assumem que este paradigma financeiro cria enorme volatilidade, mas também dizem que não estão preocupados com isso. Porquê? Porque só eles podem resolver essa instabilidade provocada por modelos matemáticos. Um dos alunos chega mesmo a declarar que essa instabilidade o coloca "numa situação muito boa". Ou seja, aquelas cabeças criam a doença e o antídoto ao mesmo tempo. Pior: naquelas cabeças, as economias e as sociedades reais não existem, porque tudo é um jogo de abstracção matemática. É chocante a forma como desprezam as consequências que as suas fórmulas têm na vida real (o subprime não lhes pesa na consciência). E tudo isto vem embrulhado na típica arrogância tecnológica da espécie. Um aluno anuncia um futuro em que os bancos serão controlados por algoritmos: "não será precisa qualquer intervenção humana", diz Michal Galas. O facto de a crise de 2008 ter sido causada por esta arrogância informática e matemática é algo que não afecta a fé científica destes indivíduos. Não por acaso, o director da escola, Philip Treleaven, revela a velha snobeira epistemológica das ciências quantitativas. Segundo o rei dos geeks, apenas os algoritmos e demais bicheza matemática garantem um conhecimento efectivo não apenas da finança, mas de qualquer campo de estudo, inclusive música e política ("computational politics"). Esta petulância quantitativa não é nova. O que é novo é o contexto: o centro financeiro do Ocidente deixou-se tomar por cientistas que produzem fórmulas que, como já vimos, são válidas em qualquer parte do universo com a excepção de um lugar: a sociedade humana, a história humana.

O velho debate girava em torno de quem defendia a superioridade moral da economia aberta e em torno de quem apontava o dedo à imoralidade intrínseca do "capitalismo". Sucede que esta finança de geeks e algoritmos não toca no debate moralidade/imoralidade. Porquê? Porque é um sistema intrinsecamente amoral. O seu problema não é a imoralidade da ganância, mas a amoralidade da hubris científica. E isto é um desafio novo. Um desafio que, além de causar desastres financeiros, coloca em causa dois pressupostos clássicos das sociedades liberais. Em primeiro lugar, destrói o princípio da fiscalização. Nós sabemos como fiscalizar a boa e velha ganância dos Gordon Gekkos: a montante, existem reguladores e, a jusante, existem tribunais. Mas como é que se fiscaliza um algoritmo que é incompreensível para 99,9999% dos seres humanos? A opacidade do HFT corrói a necessária transparência e previsibilidade da sociedade liberal. Em segundo lugar, a superioridade da economia aberta, cosmopolita e comercial ("capitalismo" no calão marxista) sempre assentou na sua intrínseca humildade. Adam Smith não inventou nada, apenas constatou um facto: o ser humano procura acumular riqueza para proteger a sua família ("propriedade privada" no calão marxista). Quando desprezam esta simplicidade moral do ser humano, os sistemas económicos falham. O marxismo falhou, porque era um modelo inadequado a seres humanos. Talvez a arrogância científica do marxismo funcione noutro planeta, tal como este mundinho financeiro de geeks e algoritmos."

...em perigos e guerras esforçados.

09 maio 2012

"ponto"
tem ponto-cruz... tem ponto final... tem ponto acrescentado ao conto... tem ponto de ordem... tem ponto de honra... tem ponto negro... tem ponto por ponto... tem dois pontos... tem ponto no mediterrâneo clássico... tem ponto no jogo... tem ponto de argumentação... tem ponto de coordenada... tem o meu ponto... tem o seu ponto... tem ponto de situação... tem ponto, depois outro e mais um... tem ponto e pronto...