05 março 2012

Porque é que o bébé há-de viver?

por Pedro Vaz Patto
juiz de direito

Muita polémica e indignação gerou a publicação de um artigo numa revista de ética médica (Journal of medical ethics), da autoria de Alberto Giubilini e Francesa Minerva, com o título O aborto pós- natal; porque é que o bebé há-de viver?. Nele se defende a tese de que é lícito matar um bebé recém-nascido. Não se fala em infanticídio, mas em aborto pós- natal, porque o bebé recém-nascido, como o embrião e o feto, não tem o estatuto moral de pessoa. Não basta ser humano para ter direito a viver. Só tem o estatuto de pessoa e o direito a viver quem é capaz de atribuir valor à sua existência porque formula objetivos (“aims”) para o futuro dessa existência e tem, por isso, interesse em viver. Quem não tem essa capacidade (como sucede com o recém-nascido, mas já não com alguns animais não humanos), não sofre qualquer privação ou dano quando morre. Pode um recém-nascido sofrer um dano quando a morte lhe causa dor. E pode ele ter algum valor moral quando os pais querem que ele viva. Mas se isso não acontecer, nada obsta a que se mate um recém-nascido, não só quando ele padeça de alguma deficiência (o que já sucede na Holanda, onde é, nesse caso, lícita a chamada eutanásia pós-natal) e a vida possa ser, supostamente, para ele um fardo; mas também quando ele, por qualquer motivo, represente um fardo, psicológico e económico, para os pais e a sociedade. Os interesses destes (pessoas actuais) prevalecem sempre sobre os de quem ainda não é pessoa e só o será potencialmente. Nas primeiras semanas após o nascimento, a criança não tem capacidade de ter objetivos (“aims”) para a sua vida. E mesmo quando, pouco depois, começa a ter essa capacidade de forma incipiente, esta ainda deve ceder perante a capacidade que têm os adultos de formular planos desenvolvidos para as suas próprias vidas. A morte da criança poderá, para os seus pais, ser menos traumatizante do que a autorização de adopção, porque neste caso a aceitação da realidade da perda definitiva pode ser mais difícil, pois não há a certeza da irreversibilidade e permanece a esperança do retorno. Quando assim for, é preferível matar a criança. 

A tese não é inteiramente inovadora (já havia sido defendida pelos influentes académicos Michael Tooley e Peter Singer), mas ainda não tinha sido exposta com tanta crueza, nem levada a consequências que muitos considerarão tão arrepiantes.

Deve reconhecer-se a coerência da tese: entre o embrião, o feto e o recém- nascido não há uma diferença de natureza, qualitativa ou substancial. A criança antes e depois do nascimento não é substancialmente diferente. Estamos apenas perante fases distintas de um processo de evolução contínuo. Mas isso deve servir para estender a ilegitimidade do infanticídio à ilegitimidade do aborto, não para estender a pretensa legitimidade do aborto à pretensa legitimidade de infanticídio. Até porque também não há saltos de qualidade no processo de evolução contínuo que vai do nascimento à idade adulta. A repulsa que espontaneamente tem causado esta tese (que revela como, apesar de tudo, permanece viva uma sensibilidade marcada pela cultura judaico-cristã e valores humanistas) quase dispensaria a tentativa de a refutar no plano racional. Estamos perante uma tese que é, antes de mais, contra-intuitiva. Mas não deixa de ser útil proceder a tal refutação.

Em coerência, a tese levaria ao absurdo de considerar que a perda da vida (como de outros direitos) não representa um dano para quem não tem consciência do mesmo, por estar temporariamente inconsciente (a dormir, por exemplo). Os autores do estudo respondem à objecção dizendo que nestes casos não há uma verdadeira incapacidade, mas uma simples privação temporária. Só que não se compreende a relevância dessa diferença. Será diferente ter a possibilidade de readquirir a consciência umas horas depois (como sucede com quem está a dormir), ou de a vir a adquirir alguns meses depois (como sucede com um recém-nascido)?

Ao pôr termo à vida de um feto ou de um recém-nascido não se está a privar estes de um interesse explícito e actual em viver, mas está-se a impedir (o que não é menos grave) que eles venham a adquirir esse interesse no futuro, como viriam a adquirir se não fosse impedido o seu natural desenvolvimento (nenhum de nós estaria hoje vivo se tivesse sido impedido esse natural desenvolvimento, o que representaria um inegável dano). A esta objecção, respondem os autores do estudo com um raciocínio falacioso, que assenta numa petição de princípio: dizem que quem ainda não tem o estatuto de pessoa (o que está por demonstrar), quem ainda não existe (o que não é seguramente verdade), não pode sofrer qualquer dano, e, por isso, os interesses das pessoas actuais prevalecem sempre sobre os interesses das pessoas potenciais. Mas o embrião, o feto e o recém-nascido, não existem apenas em potência, são já actuais, embora não tenham ainda actualizadas todas as suas potencialidades (o que sempre se verifica com a pessoa até à idade adulta, e até ao fim da vida).

A vida é o maior dos bens humanos e o primeiro dos direitos humanos, o pressuposto de todos os outros bens e de todos os outros direitos. Este é um dado objectivo. É assim mesmo que o seu titular não tenha consciência disso e disso não se aperceba. Se isso sucede, tal verifica-se porque há alguma debilidade devida à idade (do embrião, do feto, do recém-nascido, da criança), à doença ou à deficiência em graus extremos. Não é por causa de uma qualquer incapacidade ou debilidade que a pessoa perde dignidade, valor moral ou direitos. Pelo contrário, é precisamente nos casos de maior debilidade ou incapacidade que mais se justifica eticamente o cuidado dos outros e a tutela da ordem jurídica. Quem mais precisa de ser defendido é quem não é capaz de se defender por si próprio. É nesses casos que vale especialmente a advertência evangélica sobre o amor ao «mais pequeno dos meus irmãos». E também a regra de ouro comum a todas as religiões e correntes éticas laicas: «não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti» (a ti, que já foste um feto ou um recém-nascido e a quem ninguém impediu o natural desenvolvimento). Ou a advertência da nota, publicada a propósito deste estudo, do Centro de Bioética da Universidade Católica italiana del Sacro Cuore: «se não formos capazes de tutelar quem não é capaz de se auto-tutelar poremos fim à própria ideia de democracia tal como a reconstruímos depois das violências totalitárias».

The story of "keep calm and carry on".

02 março 2012

inspirational friday #2



"cause we made a promise 
we swore we'd always remember
no defeat, baby no surrender."





enquanto o comboio passa,
pare, escute e olhe,
sinta, veja e oiça.
ganhe tempo.

01 março 2012

Sangue Solto.

por Jacinto Lucas Pires
no essejota


Maria olha pela janela. Não parecia nada de especial. Caiu, chorou, calou-se. Mas depois ficou demasiado calado, tempo demais. Com um olhar diferente, de um pânico bem educado, como se tivesse acordado a meio da noite numa história de adultos, no museu dos brinquedos. No hospital descobriram que tinha sangue solto na cabeça. Puseram-lhe uns tubos finíssimos, disseram umas palavras inteligentes à mãe e ao pai, e ele não aguentou. Não parecia nada de especial, um miúdo pequeno a cair como todos os dias caem milhões de miúdos pequenos no mundo. O dela tinha de ser especial. Porquê, meu Deus? Pela janela da sala, Maria vê o que já viu demasiadas vezes. Não sabe o que procura. A estrada, a linha de comboio, o rio largo. Tudo tem outra coisa atrás. Tudo é falso, tudo contaminado, todas as coisas feitas de sangue solto. E, ao mesmo tempo, tudo tão monótono, tão plano, tão chato. 


Há manhãs em que se lembra daquele dia. Há dias em que diz o nome dele na sala vazia, depois do João Ricardo ir para a farmácia, depois de ter aspirado o pó, tratado da roupa e da loiça, e fica à espera. 


“Paulo”, diz. 


Não como se chamasse, como quem responde a uma pergunta. 


Um mês depois do enterro, Maria estava ali de pé a olhar pela janela e disse o nome do filho e Paulo, ou a sombra dele, uma imagem feita de reflexos, restos, um corpo, como é a expressão, translúcido, apareceu. Vinha do rio e atravessava o comboio e o trânsito sem ficar maior como tudo o que se aproxima nem se despedaçar como tudo o que queremos demais. De repente, Maria sente uma presença atrás, vira-se.


À entrada da sala, uma pessoa igual. Como é possível? Vestida com o mesmo fato de treino sujo que ela usa para as limpezas; o cabelo mal pintado e mal lavado, as mesmas olheiras negras. Será ela? Então quem é ela? Isto é, de onde é que ela-Maria olha aquela pessoa nova?


Com a leveza de quem anuncia uma baixa de preços no supermercado do bairro, a mulher diz: “De todos os mortos da eternidade, minha senhora, quem é que ressuscitaria?”

24 fevereiro 2012

Mr. Charlie Chaplin.

The great, inimitable Charlie Chaplin — who had been living in self-imposed exile in Switzerland for two decades — blows a kiss to the crowd while accepting an honorary Oscar in 1972 for "the incalculable effect he has had in making motion pictures the art form of this century." When he was introduced to the audience, Chaplin received a twelve-minute standing ovation.

Read more: http://life.time.com/culture/lifes-best-oscar-photos/#ixzz1nJ9D7bZv

inspirational friday #1


"We got open arms for broken hearts
Like your's my boy, come home again"


enquanto o comboio passa,
pare, escute e olhe,
sinta, veja e oiça.
ganhe tempo.