14 janeiro 2011

Strawberry Swing


Coldplay

enquanto o comboio passa,
pare, escute e olhe.
sinta, veja e oiça.
ganhe tempo!

tá muita bom!

Última Ceia.


" [...] Apesar dos mimos, raros naquela comunidade pobre - duas garrafas de vinho, um queijo e O Lago dos Cisnes como música de fundo - o último jantar lembra, de forma pungente, a Última Ceia. Sorrisos, risos e depois lágrimas num tempo de vésperas."

sobre o filme Dos Homens e dos Deuses
por Maria José Nogueira Pinto in DN 2011-01-13

12 janeiro 2011

God damn right it's a beautiful day

Mr. E's Beautiful Blues

esperar menos. fazer mais.

ser de todos
coisa nenhuma
coisa de si
não tem nem uma
sonho de paz
depois de mim
onde brilha
a luz assim?
aqui dentro
ou lá depois
esquiços vivos
comer de bois
ninguém sabe
se não fôr
quem não zarpa
não tem Amor
esperar menos
fazer mais
enfim sereno
p´ra onde vais?

A mulher que se casou com ela própria

José Tolentino Mendonça
DN Madeira 10.01.11


[este texto respeita o novo acordo ortográfico]

«Sabem de país mais desconhecido que um coração?». Foi o que me apeteceu perguntar estes dias ao assistir num dos telejornais a uma notícia bizarra, com a qual até os jornalistas que assinavam e apresentavam a peça gozavam. Uma mulher de Taiwan, secretária de profissão, aí entre os trinta e os quarenta anos, tinha protagonizado um casamento com ela própria: com direito a vestido branco, aliança, transporte em limousine, jantar para centenas de convidados e fogo de artifício. Não sei como é que tal possa ser, pois não imagino que exista em alguma parte um enquadramento jurídico para iniciativas do género. Penso que tudo se terá ficado por uma celebração simbólica em que aquela mulher, encenando um matrimónio, jurava fidelidade a si mesma.

Ao receber uma notícia destas podemo-nos rir, alarmar, enfurecer, encolher os ombros, interrogarmo-nos se tudo não passa de uma farsa desenhada para os tabloides e para a TV nas tréguas natalícias onde, ao que parece (sic), as notícias sérias não abundam, questionar a saúde psicológica daquela mulher e dos que a rodeiam, etc, etc. Mas, a existir um pingo de verdade nesta insólita história, somos remetidos para um nível mais profundo de compreensão: temos de tentar perceber, por de trás do ato, ainda que nos pareça destituído de qualquer racionalidade, o que conduz ou pode conduzir um Ser Humano a uma decisão destas. Sem querer ficcionar sobre uma história seguramente já saturada de ficção (e de óbvias, penosíssimas ilusões), há uma causa que ocorre imediata: uma grande, irresolúvel e mal vivida solidão.

A cultura contemporânea deixou de nos preparar para a solidão. Na maior parte das vezes é uma aprendizagem que temos de fazer em cima dos próprios acontecimentos, ou na sua dolorosa ressaca, e de forma muito desacompanhada. É como se a solidão fosse uma surpresa absolutamente improvável na nossa experiência humana e não, como ao contrário é, um modo de existência completamente comum. Há uma frase de Truman Capote, que há anos passei para um dos meus cadernos: «Todos estamos sozinhos, debaixo dos céus, com aquilo que amamos». Mas esquecemos isso. Esquecemos que todos os dias, mesmo numa vida afetivamente integrada e febrilmente ativa, a solidão nos visita. Somos sós connosco próprios e em companhia. Fomos sós em criança, fomos assim na transbordante juventude e nas décadas da vida adulta, e seremos assim na velhice. A amizade e o amor são formas de condividir, diminuir, dar serenidade ou potenciar criativamente a solidão, mas o assobio ininterrupto da solidão continuará a fazer-se ouvir no abraço redondo dos amantes ou na ronda magnífica dos amigos. Recordar-se disso é humanizar o nosso olhar e o nosso juízo sobre a realidade.

Também por este motivo, gostei muito de reencontrar no número de janeiro da revista "Ler" as palavras lúcidas da escritora brasileira Nélida Piñon, opondo o alicerçante desejo de recolhimento à atração atual por tudo o que é dispersivo: «a solidão buscada é o lugar onde melhor aprendi a encontrar-me».
Este blogue NÃO respeita o novo acordo ortográfico e espera poder continuar a dar erros durante muito mais tempo.

Há certas enfermidades das quais se padece com singular alegria...

09 janeiro 2011

primeiros passos em 2011

a caixa com outras caixinhas lá dentro enquanto os ciclos correm. nevoeiros gaélicos. amizades atendidas. estágios em tempo de férias. perenes fábulas antigas. amoras que comunicam. 5 cafés. surrealidade na lua que anda. restaurantes com arestas por limar. restaurantes que são salas de estar. corações acompanhados. damas despeitadas. bares a favor dos copos. furacões que chegam. saltos mortais. aprovação pendente. ficar até ao fim. emigrar sem pêlos na cabeça. ser pago para curar a calvice. não beber com a direita. artes e informática. tecnologias e conteúdos. génios excêntricos. artistas executivos. só artistas. artistas azeiteiros. 5000€. assassinatos. eleições. magia que atravessa vidros. magia que reproduz. bruxedo. creatividade. polícia cá e lá. trabalho. sorna. wittgenstein e a relva que tinha em casa. atlântico-poça-que-separa. águas a rebentar. surdos a desesperar. cães que voltam mais gordos. segunda vida para fugir da primeira. compras por aproximação. pipocas e batatas. 

viver a caminho.
...tá muita bom...

07 janeiro 2011

porque ela gosta...

"Dress sexy at my funeral my good wife
Dress sexy at my funeral my good wife
For the first time in your life
Wear your blouse undone to hear
And your skirt split up to here

Oh dress sexy at my funeral my good wife
For the first time in your life
Oh dress sexy at my funeral my good wife
Wink at the minister
Blow kisses to my grieving brothers

Dress sexy at my funeral my good wife
And when it comes your turn to speak before the crowd
Tell them about the time we did it
On the beach with fireworks above us

On the railroad tracks with the gravel in your back
In the back room of a crowded bar
And in the graveyard where my body now rests

Oh dress sexy at my funeral my good wife
Dress sexy at my funeral my good wife
For the first time in your life

Also tell them about how I gave to charity
And tried to love my fellow man as best I could
But most of all don’t forget about the time on the beach
With fireworks above us

Oh, oh, oooooh ..."



Smog - Dress Sexy at my funeral

03 janeiro 2011

A sombra da falsidade

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
in DN 2011-01-03

Os últimos anos trouxeram um traço original à nossa realidade política. Pela primeira vez há muitas décadas o País vê-se a viver debaixo de um manto de suspeitas, enganos, falsidades.

A vida política sempre teve proverbiais problemas com a verdade, pior numa sociedade mediática. Mas se uma certa ilusão e encenação fazem parte do saudável confronto parlamentar, existem épocas de distorção inaceitável, mesmo em sociedades civilizadas. O caso clássico é a presidência de Richard Nixon, cujo estilo e esquemas marcaram um período conturbado da fogosa democracia americana. Hoje vive-se situação semelhante em Portugal.

Desde 1974 a democracia sofreu fases muito diferentes, algumas difíceis e incertas. Mas nunca se viveu um clima de desconfiança e embuste como actualmente. Se tal situação não pode ser atribuível a uma pessoa, é verdade que, como Nixon, cabe a José Sócrates o papel central de responsável, inspirador e maestro desse ambiente. Trata-se, não tanto de um esquema consciente e organizado, mas de uma segunda natureza instintiva e automática.

As provas, hoje esmagadoras, tiveram sintomas desde o princípio. Apesar da pose inicial de estadista reformador, Sócrates viu-se logo envolvido num espectacular ardil para fugir da solene promessa eleitoral de não aumentar impostos. A surpresa indignada perante o que todos sabiam, o nível do défice, e a comissão técnica justificativa da cambalhota foram criações magistrais no género.

Este foi apenas o primeiro episódio de longa novela de ficções e patranhas. As questões financeiras permaneceram tema favorito, até ao rosário de PEC de 2010. A descarada desorçamentação e contabilidade criativa para sustentar projectos favoritos, como energias renováveis, distribuição de computadores e outros devaneios, escondem pesadíssimos compromissos sobre o futuro. Sobretudo as parcerias público-privadas, em que se apostou como nenhum governo do mundo, representam uma bomba de relógio fiscal que ultrapassa toda a nossa multissecular história de desregramento.

Nem só de dinheiros viveu a aldrabice. Todos os campos da vida nacional estiveram, mais ou menos, debaixo da sombra da falsidade. Das graves acusações na sua vida pessoal às supostas reformas corajosas que não mudavam nada, foram cinco anos de encenações, enredos e miragens. Claro que se tomaram medidas importante e foram feitas mudanças estruturais. Mas até essas tinham de vir sempre envolvidas em pretensões exageradas e roupagens fantásticas.

Nas questões fracturantes, prioridade irresponsável deste executivo, foram realizados prodígios de prestidigitação. Afirmando-se sempre um político equilibrado, moderno e conciliador, Sócrates enveredou impudente- mente pelo partido mais extremista, palpavelmente feliz por conseguir tal ilusionismo diante do país embasbacado.

É muito curioso que, nas várias suspeitas que surgiram relativamente a aspectos da sua história pessoal e política, o senhor primeiro-ministro tenha adoptado sempre a posição oposta à canónica. Os políticos acusados de fraudes ou tropelias costumam afirmar-se ansiosos que a questão vá a tribunal para que a verdade vença. Sócrates, nunca abandonando uma posição de negação indignada, fez sempre tudo para evitar o esclarecimento jurídico.

Este comportamento na cúpula ressentiu-se em todos os níveis da vida nacional. Portugal habituou-se a ver publicamente as contínuas e sistemáticas práticas de sobrepor à realidade um filtro distorcido, empregar expedientes oportunistas de manipulação, negar a evidência mais patente. A verdade desaparece sempre debaixo dos fumos da conveniência. Agora a crise faz a impostura descer a canalhice.

É bom não exagerar o significado desta realidade. Embora indiscutivelmente grave e nocivo, este novo estilo político nada tem a ver com as misérias de há cem anos. Além disso o repúdio generalizado pelo consulado de Sócrates terá consequências futuras. Como Nixon, ele ficará na história como hiato triste e aviso solene. Felizmente José Sócrates não representa a política lusa.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt