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05 janeiro 2015

(Ta)men on fire.

Qual Denzel Washington em Man on Fire, Tamen de canhões apontados ao establishment das Humanidades.

BATAS BRANCAS
Miguel Tamenin Forma de Vida

O editorial de The Point opõe-se a uma esperança que se tornou recorrente. Trata-se da esperança de que descobertas científicas mostrem maneiras mais verdadeiras de fazer o que se faz nas humanidades e comprovem as intuições dos seus melhores praticantes; e que assim as humanidades nos Estados Unidos possam finalmente ser respeitáveis. Tal esperança parece-me também a mim fátua. A complacência que os humanistas põem nas bio- e neuro-coisas é injustificada e tem, no melhor dos casos, um valor de entretenimento.  O entretenimento é quase sempre proporcionado por pessoas que não são reconhecidas por nenhuma bio- ou neuro-pessoa, e apresentado para benefício de pessoas que não têm qualquer ideia do que sejam bio- ou neuro-coisas.   A situação não é diferente da definição que  o músico e compositor Frank Zappa deu do jornalismo musical: “pessoas que não sabem escrever, a entrevistar pessoas que não sabem falar, para pessoas que não sabem ler.”
Na Europa, onde a tradição das humanidades é menos forte e o financiamento para os seus costumes e instituições é esmagadoramente público, a via para a respeitabilidade das humanidades é prosseguida por outros meios. Resulta, na sua forma tentada, de um processo de mimetismo.  O processo consiste em, na justificação e organização das humanidades, se emularem costumes, vocabulários e instituições característicos daquilo que se imagina serem as ciências.
O resultado mais grotesco e exemplar deste processo é a existência dos chamados “centros de investigação” nas humanidades ou, mais correctamente, o financiamento público de tais centros. Tentar explicar a um humanista não-europeu a entidade “centro de investigação” (sem falar sequer na entidade “laboratório”) é tão difícil como tentar explicar a constituição britânica ao Professor Jorge Miranda. Estas entidades e os seus parentes próximos constituem uma espécie (cujo membro mais avantajado e de maior alimento são as erroneamente conhecidas por escolas de pós-graduação alemãs) que floresce apenas nos ecossistemas em que o estado governa o ensino superior.
Robert Pippin lembra, na sua contribuição para o simpósio do The Point, a ideia de Humboldt sobre a ligação estreita entre investigação e ensino que caracteriza as universidades modernas. Tal ligação, que é muitas vezes mal-entendida como licença para considerar o ensino comparável em dignidade ao latrocínio e ao envenenamento, é particularmente importante nas humanidades. A actividade das humanidades nos seus melhores casos oferece justificações sem que possa oferecer testes ou correlações. Requer pelo contrário um trabalho paciente de discussão e exame para que são cruciais as audiências das salas de aulas. O ensino, graduado e pós-graduado, constitui a principal e a melhor possibilidade para esse trabalho.
Por outro lado, não é exactamente claro aquilo que nas humanidades conta como investigação. Embora a palavra ’investigação’ pareça já à partida um sintoma do processo de mimetismo que venho a deplorar, não é de excluir que o termo tenha muitos significados diferentes, e seja suficientemente plástico para não excluir por exemplo a tradução das obras completas de Saint-Simon levada a cabo por um centro de história, um “projecto” sobre geo-bio-socio-neuro-morfologia da materialidade na paisagem prosseguido num centro de literatura, e uma série de congressos lusófonos sobre O Que É Afinal O/A Outro/a? oferecida por um centro de filosofia, sem falar, claro, do fatal volume colectivo sobre performatividade e representação publicado (mediante pagamento antecipado) numa editora holandesa. Excepto a primeira, nenhuma destas coisas, porém, e independentemente do seu mérito, é insusceptível de se passar melhor à volta de mesas de seminário e em salas de aulas.
Com efeito, salvaguardados aqueles casos raros e temporários em que, por falta de mundo e tempo, se exigem grupos grandes de pessoas, a mera ideia de um conjunto de pessoas dedicadas à mesma coisa (a que lisonjeiramente se chama “projectos”) é uma monstruosidade nos termos.  O financiamento público de centros de humanidades serve essencialmente para os financiados se encontrarem periodicamente e se publicarem uns aos outros em revistas inventadas e em livros que nenhuma editora séria, comercial ou não, consideraria um segundo, não fosse o caso de lhes garantirem antecipadamente o pagamento de todas as despesas.
Uma segunda característica das actividades académicas das humanidades é assim a de, salvo excepções como as apontadas, o que se faz se fazer sozinho. Nas humanidades, e em todas as humanidades, não existe qualquer vantagem discernível em existirem “equipas”,  “colectivos” ou “grupos”.   A pessoa que formula uma nova teoria brilhante sobre vagueza, ou que redescreve, ainda que ligeiramente, uma teoria de Epicteto (ou um romance de Júlio Dinis)  precisa quando muito de pessoas que a ouçam e lhe respondam – mas nunca de pessoas que façam o que ela faz. As suas necessidades intelectuais não requerem qualquer instituição além da universidade, essa maravilhosa invenção medieval. Deste ponto de vista, a diferença entre humanidades e ciências é só a diferença entre coisas que devem fazer-se apenas em universidades e coisas que por vezes têm de se fazer noutros lados.
Acontece ainda que os chamados centros de investigação nas humanidades são encorajados, sobretudo quando têm que justificar o dinheiro que custam, a combinar os piores aspectos do jargão científico (“projectos”, “equipas”, “avaliações” e “resultados”) para encobrir a mais completa falta de sanção para aquilo que fazem. A serem ciência porém são ciência sem investigadores, laboratórios, comunidades científicas, aparelhos, testes, patentes, ratos e dinheiro.   Produzem deliberadamente humanistas ataviados de cientistas os quais, após várias mudas de batas brancas, acabarão por sentir o que deveras fingem. Não é no entanto impossível que a situação não seja aparente a alguns participantes desta comédia, e aos vários administradores que intervêm no processo. Mas tal quer apenas dizer que subsiste à base de uma dieta combinada de má-fé e estupidez.  
Não sem interesse é explicar a razão por que na Europa se insiste num processo que na ordem geral das coisas não será caro mas que é em todo o caso um desperdício. Uma explicação que me ocorre, pelo menos para o caso português, é o modo como a lentidão e irracionalidade não tanto, como se diz, das universidades, mas das leis laborais, ao promover a eternização dos vínculos laborais e ao impedir a substituição de pessoas,  levou ao cultivo intensivo de formas substitutivas de emprego.  Tais formas de emprego foram em Portugal cometidas a uma agência pública extra-universitária, a exageradamente conhecida como Fundação para a Ciência e Tecnologia.  
De facto, em Portugal quase todo o financiamento para a investigação nas humanidades depende dessa agência. Mas porque foi fundada em tempos mais felizes, em que se entendia por ‘ciência’ aquilo a que a maior parte das pessoas chama ciência, os modos de reconhecimento dos subsidiados putativos nas humanidades incluiram desde sempre os costumes e instituições reconhecíveis por cientistas inocentes: grupos, laboratórios e centros. À medida que as universidades foram quebrando o elo demográfico entre as gerações dos seus professores, passou a ser garantido por essa agência pública emprego temporário às pessoas que deveriam estar nas universidades. Dado o aumento de esperança de vida, estas pessoas passarão plausivelmente o resto da sua vida de bolsa em bolsa até à idade da reforma.   
A situação não parece mostrar sinais de acabar. E assim se explica que, de três em três, ou de quatro em quatro anos, quando mais um grupo de dinamarqueses mascarados de cientistas se desloca para avaliar um centro investigação de humanidades, todos os seus cada vez menos jovens investigadores, alinhados à porta, vestidos de batas brancas, continuem a agitar melancolicamente os estetoscópios de cartão.

23 abril 2014

Um ano depois, continuam a jogar tudo como São Jorge.

Happy Saint George's Day!


Depois há umas lendas sobre uns dragões.

Síria, Nigéria, Líbano, Egipto, Paquistão
Nestes países ser cristão é jogar tudo como São Jorge.

05 março 2014

Renascer - comece hoje.

Pe. José Tolentino de Mendonça
Redação: SNPC/rjm | in Capela do Rato | 04.03.14

Quaresma, tempo para renascer
Ao falar de uma espiritualidade inscrita no quotidiano, o frei Carlos Maria Antunes, no livro "Só o pobre se faz pão", diz que uma das nossas dificuldades é a dispersão. O nosso coração está disperso, dividido por muitas coisas. Somos objeto de múltiplos apelos e necessidades. Um rebuliço sem fim atravessa o nosso interior. E com ele também um cansaço e uma angústia que vamos tentando compensar de várias formas.

O cansaço e a angústia são um terreno fértil para a multiplicação das falsas necessidades e falsos desejos. A dispersão provoca mais dispersão.

Neste quadro, a nossa unidade e vigilância interior, que são fundamentais no nosso interior, tornam-se frágeis. Vamo-nos tornando mais vulneráveis, e acabamos, muitas vezes, num movimento de defesa, por endurecer o nosso coração, fazendo de conta que não vejo, que não oiço. Mas esta atitude também não nos dá a verdadeira unidade de coração.

Precisamos de aprender uma arte do acolhimento da nossa própria vida. Acolhermo-nos, acolher aquilo que somos, acolher o que nos chega como uma oportunidade, mas partindo de um centro, de um núcleo vital que em nós está desperto.

O padre Carlos cita o trecho de um poeta persa, Rumi, que diz o seguinte: «O ser humano é uma casa de hóspedes; cada manhã, um novo recém-chegado, uma alegria, uma tristeza, uma maldade, que vem como um visitante inesperado. Diz-lhes que são bem-vindos, e recebe-os a todos, ainda se são um coro de penúrias que esvaziam a tua casa violentamente. Trata cada hóspede com todas as honras; ele pode estar a criar-te um espaço para uma nova delícia. O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia, recebe-os à porta sorrindo e convida-os a entrar. Agradece a quem quer que venha, porque cada um foi enviado como um guia do Além».

Esta arte do acolhimento da vida, de saber abraçar tudo a partir de uma unidade interior, pede de nós a pobreza espiritual, a pobreza de coração.

Aquando da eleição do papa Jorge Mario Bergoglio - todos nós já tivemos a oportunidade de ouvir esta história -, o cardeal Claudio Hummes, arcebispo de S. Paulo, que estava ao lado dele, abraçou-o e disse-lhe: «Não te esqueças dos pobres». Estas palavras ficaram a fazer-lhe caminho no coração, e quando se tratou de escolher o nome, ele optou por Francisco, lembrando-se de Francisco de Assis e da sua espiritualidade universal.
Falando aos jornalistas nos primeiros dias, o papa deixou os papéis e teve um suspiro, a expressão de um desejo, e disse: Quem me dera que a Igreja se tornasse pobre e fosse uma Igreja para os pobres. Uma Igreja que se torna pobre e faz do acolhimento dos pobres a sua razão de ser, a sua missão.

A pobreza espiritual aparece-nos como um conselho evangélico, isto é, como modo de vida, como uma opção que cada cristão é chamado a fazer para se configurar a Cristo, para se tornar mais próximo de Cristo. Há mais dois conselhos evangélicos: a obediência, ou seja, a capacidade de escutar e permanecer fiel à palavra que se recebe; o outro é a pureza de coração, e aí a castidade é muito mais do que uma privação, tornando-se um modo positivo de estar na vida.

Cada um destes conselhos é vivido na Igreja por todos os batizados, embora de modos diferentes. Todos somos chamados à configuração com Cristo, que é pobre, puro de coração e obediente ao Pai.

Como é que podemos concretizar a opção por uma vida pobre, por uma pobreza espiritual? A vida espiritual não é uma técnica, não é uma habilidade, não é um conjunto de ritos. A vida espiritual é um modo de ser. E quando se fala de adotar uma atitude espiritual de pobreza no coração - S. Francisco chamava-lhe a Irmã Pobreza, ou Santa Pobreza -, temos, antes de tudo, de exercitar o nosso ser.

«Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos. Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam, e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho» (Sophia de Mello Breyner).

Há um momento da nossa vida em que deixamos de saber de nós próprios. Parece que já não há um fundo de ser a marcar aquilo que somos e que nos estrutura, uma decisão fundamental, mas, pelo contrário, somos a dispersão.

A nossa vida não é só um conjunto de inevitabilidades: ela tem de ser uma opção fundamental, isto é, tem de ser algo que eu decido, que eu quero, um caminho que escolho, em diálogo com o Espírito. A minha vida tem de ter fundamento, para não ser uma deriva, um fragmento flutuante no oceano convulso. Precisamos de um centro.

E para ter um centro, precisamos de momentos de recentramento para ouvirmos a nossa voz interior, para nos escutarmos mais profundamente, para perguntarmos: «O que é que eu vivo? O que me enlaça? O que procuro? O que sou?». Estes momentos de recentramento são revitalizadores.

A Quaresma não são 40 dias para tentarmos fazer rituais mais ou menos arcaicos. A Quaresma é um tempo de revitalização, um tempo para nos colocarmos as perguntas-chave que vão favorecer o renascimento do que somos. E Deus sabe como cada um de nós precisa de renascer. Por isso este é o tempo de voltar a si.

23 abril 2013

São Jorge.

St. George's Day

Grego, cristão, martirizado por isso.
Depois há umas lendas sobre uns dragões.

Síria, Nigéria, Líbano, Egipto, Paquistão
Nestes países ser cristão é jogar tudo como São Jorge.

15 maio 2012

Adam Smith queimaria esta malta.

Henrique Raposo
no Expresso de 27 de Abril

"Os magos matemáticos do mundo financeiro não são os únicos culpados pela crise de 2008, mas estão, sem dúvida, no pódio da culpa. Estes geeks dos modelos matemáticos criaram um mar de dinheiro irreal, sem relação com a actividade económica. Este planeta da abstracção financeira, habitado por algoritmos e derivados, chegou a ser 40% mais rico do que o PIB real do mundo inteiro. Em 2006, o PIB de todos os países do mundo era de 48,6 triliões de dólares, mas o valor de acções e derivados estava nos 67,9 triliões (contas de Niall Ferguson). Os famosos "activos tóxicos" escondiam-se - e escondem-se - nestes 40% de malabarismo financeiro. De forma surreal, esta feitiçaria matemática criou uma torre de marfim que está tão distante de Adam Smith como de Marx. Isto já não é liberalismo ou "capitalismo". Isto é geekismo. 

Antes de 2008, os tais modelos matemáticos diziam que uma crise de liquidez era virtualmente impossível. Resultado? A relação entre dinheiro-em-caixa e activos-financeiros-garantidos-por-dívida podia ser de 1 para 19. Foi o que aconteceu à Long-Term, empresa de dois prémios Nobel de Economia, Scholes e Merton. Esta empresa tinha 6,7 mil milhões em depósito, mas possuía 126 mil milhões em bens gerados na ficção financeira. Porquê? Porque os computadores diziam que uma crise de liquidez era uma impossibilidade até ao fim do universo. Problema? Estas fórmulas funcionavam com dados dos últimos cinco anos. Portanto, aquela absoluta certeza científica (repito: a crise do subprime era impossível até ao fim do universo) assentava num cálculo que apenas contemplava dados dos últimos cinco anos. Como é que um cientista pode ser tão irracional? Depois do caos de 2008, um dos geniozinhos da Long-Term disse o seguinte: "se eu tivesse vivido a crise de 1929, estaria em melhores condições para perceber os acontecimentos". Os geeks sabem muito de matemática, mas nada de história. E o habitat da economia é a história, e não a matemática.

Após 2008, seria de supor que esta arrogância científica desaparecesse do centro da finança. Mas isso não aconteceu. Aliás, o cenário ficou ainda mais lunático. De 2008 para cá, os algoritmos aumentaram a sua presença. O que é um algoritmo? É uma fórmula matemática do tamanho de um camião TIR, uma sucessão de instruções matemáticas que cria um mecanismo-que-pensa-por-si, uma máquina que toma decisões sozinha. O sistema de algoritmos (High Frequency Trading - HFT) controlava menos de 25% das transacções dos EUA em 2008; em 2012, já controla 70% das transacções americanas e 40% das europeias. Até parece piada. O factor que nos conduziu ao abismo de 2008 (modelos matemáticos) aumentou a sua dimensão e complexidade. Estamos a curar o doente com mais uma dose da doença. Chegou-se ao ponto em que os fluxos financeiros já não estão em mãos humanas. A matemática em forma de máquina (algoritmo) expulsou os corretores, aqueles humanóides que gesticulavam nas bolsas.

Tal como Jorge Nascimento Rodrigues escreveu nestas páginas, esta situação parece um filme de ficção científica. Eu acrescentaria que tudo isto soa a distopia científica. Quando a venda e a compra de milhões de obrigações é feita num micro-segundo e sem intervenção humana, é sinal de que já estamos num Admirável Mundo Novo, ou seja, já estamos para lá da moralidade humana, a beijar um mundo pós-humano liderado por uma mentalidade técnica e científica que é intrinsecamente amoral. Aliás, esta amoralidade científica ficou evidente numa reportagem do Financial Times (bastante crítica em relação ao domínio do algoritmo no sistema financeiro). Na Terra do Nunca do geek financeiro, a Financial Computing Centre, em Londres, o repórter do FT encontrou um grupo de matemáticos que vive num mundo virtual de fórmulas e linguagem de computador. Muitos destes matemáticos assumem que este paradigma financeiro cria enorme volatilidade, mas também dizem que não estão preocupados com isso. Porquê? Porque só eles podem resolver essa instabilidade provocada por modelos matemáticos. Um dos alunos chega mesmo a declarar que essa instabilidade o coloca "numa situação muito boa". Ou seja, aquelas cabeças criam a doença e o antídoto ao mesmo tempo. Pior: naquelas cabeças, as economias e as sociedades reais não existem, porque tudo é um jogo de abstracção matemática. É chocante a forma como desprezam as consequências que as suas fórmulas têm na vida real (o subprime não lhes pesa na consciência). E tudo isto vem embrulhado na típica arrogância tecnológica da espécie. Um aluno anuncia um futuro em que os bancos serão controlados por algoritmos: "não será precisa qualquer intervenção humana", diz Michal Galas. O facto de a crise de 2008 ter sido causada por esta arrogância informática e matemática é algo que não afecta a fé científica destes indivíduos. Não por acaso, o director da escola, Philip Treleaven, revela a velha snobeira epistemológica das ciências quantitativas. Segundo o rei dos geeks, apenas os algoritmos e demais bicheza matemática garantem um conhecimento efectivo não apenas da finança, mas de qualquer campo de estudo, inclusive música e política ("computational politics"). Esta petulância quantitativa não é nova. O que é novo é o contexto: o centro financeiro do Ocidente deixou-se tomar por cientistas que produzem fórmulas que, como já vimos, são válidas em qualquer parte do universo com a excepção de um lugar: a sociedade humana, a história humana.

O velho debate girava em torno de quem defendia a superioridade moral da economia aberta e em torno de quem apontava o dedo à imoralidade intrínseca do "capitalismo". Sucede que esta finança de geeks e algoritmos não toca no debate moralidade/imoralidade. Porquê? Porque é um sistema intrinsecamente amoral. O seu problema não é a imoralidade da ganância, mas a amoralidade da hubris científica. E isto é um desafio novo. Um desafio que, além de causar desastres financeiros, coloca em causa dois pressupostos clássicos das sociedades liberais. Em primeiro lugar, destrói o princípio da fiscalização. Nós sabemos como fiscalizar a boa e velha ganância dos Gordon Gekkos: a montante, existem reguladores e, a jusante, existem tribunais. Mas como é que se fiscaliza um algoritmo que é incompreensível para 99,9999% dos seres humanos? A opacidade do HFT corrói a necessária transparência e previsibilidade da sociedade liberal. Em segundo lugar, a superioridade da economia aberta, cosmopolita e comercial ("capitalismo" no calão marxista) sempre assentou na sua intrínseca humildade. Adam Smith não inventou nada, apenas constatou um facto: o ser humano procura acumular riqueza para proteger a sua família ("propriedade privada" no calão marxista). Quando desprezam esta simplicidade moral do ser humano, os sistemas económicos falham. O marxismo falhou, porque era um modelo inadequado a seres humanos. Talvez a arrogância científica do marxismo funcione noutro planeta, tal como este mundinho financeiro de geeks e algoritmos."

06 setembro 2011

sobre os novos totalitarismos.


Uma polícia do pensamento?
Sol-on-line 5 de Setembro, 2011
por José António Saraiva

"Abri o meu email e não queria acreditar: estava positivamente inundado de correspondência enviada por pessoas que eu não conhecia, insultando-me pela crónica Dois Maridos, publicada neste espaço há 15 dias.
A correspondência dividia-se em três categorias.

Os emails mais benévolos continham lições de moral, considerando o dito artigo homofóbico e contrário à igualdade entre os seres humanos. E uma leitora até dizia que o texto era «racista» e que incitava à «violência sobre as mulheres». Extraordinário!

Havia, depois, os emails simplesmente insultuosos, quase sempre com amplo recurso a palavrões, chegando a desejar-me a infelicidade e a morte – a mim e aos meus familiares!

Um terceiro grupo era composto por emails sem qualquer texto escrito – e que, no espaço destinado ao Assunto, tinham uma referência depreciativa: «Vergonhoso», «Atrasado mental», etc.

Havia finalmente um, endereçado por um jornalista estrangeiro, que me ameaçava com a Justiça internacional e uma eventual pena de prisão!

‘Só me faltava esta’, pensei eu, que já fui julgado umas 100 vezes por alegado abuso de liberdade de imprensa e passo a vida nos tribunais e nas secções de Justiça a prestar declarações.

Percebi, entretanto, que uma comunidade gay tinha feito circular o texto entre os seus membros, com o pedido expresso de enviarem ao autor um email ofensivo. E no Facebook circulava um abaixo-assinado incitando a um boicote activo ao SOL e ao seu director, que tinha cerca de 1.000 adesões.

Ora qual fora o meu crime, para suscitar tamanho repúdio e ataques tão violentos e grosseiros?

Basicamente, manifestar-me contra o casamento gay.

Numa crónica que eu pretendi que fosse ligeira e descontraída, ilustrada por uma imagem do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, comentava-se a suposta cena de violência conjugal entre o ex-deputado do PSD Jorge Nuno de Sá e Carlos Marcano, referiam-se as dificuldades semânticas que um casamento gay levanta (por exemplo, numa relação entre dois homens devemos chamar ‘maridos’ a ambos?) e reafirmava-se a ideia de que a palavra ‘casamento’ deveria ser reservada à união entre um homem e uma mulher, ou seja, ao acto fundador de uma família.

Não era um texto pesado nem doutrinário, e muito menos radical. O desacordo relativamente ao casamento gay não é uma posição original e, até mais ver, é legítima. Ou não será? Já não existe o direito de discordar da lei que admitiu a extensão da palavra ‘casamento’ à união entre dois homens ou duas mulheres?

Enchi-me de paciência e decidi responder personalizadamente a cada um dos emails. Entendi que era meu dever enviar uma palavra directa a todos que me tinham escrito, mesmo os mais grosseiros. Levei uma noite inteira a fazê-lo, e as minhas respostas agrupavam-se em três categorias.

Aos que não escreveram texto nenhum, e apenas preencheram o espaço do Assunto, agradeci o facto de se darem ao trabalho de me escrever mesmo sem terem nada para dizer.

Aos que me insultavam com palavrões ou me desejavam a morte expliquei que os insultos dizem muito sobre quem os profere – mas não dizem absolutamente nada sobre o destinatário. Ora os autores dessas mensagens tinham deixado uma péssima imagem de si próprios.

Aos que me davam lições de moral – acrescentando invariavelmente que aquele texto não devia ter sido publicado – procurei explicar-lhes o que significa a palavra ‘tolerância’. Informei-os que publico semanalmente no SOL diversos textos com opiniões contrárias às minhas, já tendo publicado artigos a defender o casamento gay. E interpelei-os directamente: «Se o leitor estivesse agora no meu lugar, publicaria o meu texto?». Esta pergunta é sempre, nestas polémicas, a pedra de toque. É ela que separa os tolerantes dos intolerantes, os democratas dos fundamentalistas.

Finalmente, expliquei ao jornalista estrangeiro que em Portugal houve censura durante 50 anos, que agora vivemos em democracia – e que o SOL é um jornal plural, que respeita a liberdade de opinião e a diversidade de pontos de vista.

Não percebo por que razão a homossexualidade tende a tornar-se um tema tabu, que não pode ser discutido e sobre o qual não é permitido opinar.

Não percebo – e não aceito. Nunca me verguei às conveniências e ao politicamente correcto – e não seria agora que o começaria a fazer. Sou totalmente contra o casamento gay, já expliquei detalhadamente porquê e reivindico o direito de ter opinião sobre este assunto e de a expressar. Será que alguns querem instituir uma nova Polícia do Pensamento? Querem reacender-se as fogueiras da Inquisição?

Hoje, em Portugal, escreve-se sobre tudo: sobre a liberalização de todas as drogas, sobre a eutanásia, sobre as vantagens das centrais nucleares, sobre a legitimidade do aborto, até sobre a reposição da pena de morte – e não se pode contestar o casamento gay? Porquê? Com base em quê?

Há muitos anos o meu pai, já em ruptura com o PCP, escreveu no Diário de Lisboa um longo artigo sobre África que incomodou os comunistas. Respondeu-lhe um jornalista chamado António Rego Chaves, militante ou simpatizante comunista, que acabava assim o seu texto: «Senhor doutor, deixe-nos em paz!».

Numa admirável resposta, o meu pai dizia-lhe o seguinte: «Faço-lhe a justiça de pensar que, ao tomar a iniciativa de comentar o meu artigo, a sua paz irreversivelmente acabou». Tinha razão. Uns tempos depois este jornalista afastar-se-ia do PCP.

A todos os que me atacaram, mesmo aos mais agressivos, aos mais grosseiros, aos mais insultuosos, eu digo o mesmo: «Faço-lhes a justiça de pensar que a minha resposta os leve a reflectir um pouco sobre a sua atitude. Ao verem que alguém lhes pode responder civilizadamente a um insulto, isso constitua para eles uma lição». Acredito nisso – e foi por isso que a todos respondi um a um.

Uma reflexão, para finalizar.

Na nossa Civilização, a palavra ‘casamento’ tinha um significado preciso. Por que se insistiu em estendê-la a outro tipo de relações? Eu digo: por razões ideológicas. Exactamente para significar que as uniões homossexuais são exactamente iguais às uniões heterossexuais. Só que eu acho que não são. Que são diferentes – e portanto não deveriam usar a mesma palavra.

Ora, se os gays tiveram o direito de defender o seu ponto de vista, eu não terei o direito de discordar? Ou a lei que legalizou os casamentos gay ilegalizou simultaneamente as opiniões contrárias?"

30 outubro 2009

Drexler em Lisboa?!



Sim! Drexler em Lisboa!
Na passada quarta-feira, Jorge Drexler deu o seu primeiro concerto em Lisboa.
Está a gravar um disco em Madrid.
Convidaram-no para um "saltinho a Portugal".

Pensou, talvez, que era só mais um concerto...
Aterrou-lhe nas mãos uma plateia de fãs incondicionais, a cantar com ele as várias músicas!
"Nem quero perguntar onde conseguiram as minhas canções... [são raros os cd's à venda a Portugal] ...mas obrigado por procurarem!"

Era uma encruzilhada.
Drexler deu o último concerto de uma tournée de dois anos, e o seu primeiro em Lisboa.
O ambiente transbordava emoção. Advinhava-se uma noite especial.

Entre "músicas pedidas", histórias sobre as músicas, três encores e enganos improvisados. Entre bocas para a plateia, a risos e muita alegria, não faltou nada naquela noite... nem a promessa de voltar.



Drexler estava visivelmente surpreendido com um público tão entusiasta no Cinema São Jorge. Na terceira vez que voltou ao palco: "Se eu voltar a Lisboa... Não, eu VOU voltar a Lisboa!" O público ao rubro!

Na encruzilhada, houve música e comunhão.
Gracias Drexler!!!

Ya esta en el aire, girando mi moneda
Y que sea lo que, sea

Tá muita bom!!!